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Se coronavírus se espalhar, não há sistema de saúde que dê conta

Infectologista que esteve em Wuhan na operação de resgate dos brasileiros fala sobre os riscos do novo vírus.

Se coronavírus se espalhar, não há sistema de saúde que dê conta
Notícias ao Minuto Brasil

16:15 - 12/02/20 por Folhapress

Brasil BRASIL-CORONAVÍRUS

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Única infectologista na equipe médica que estava na operação de resgate de brasileiros em Wuhan, epicentro do novo coronavírus na China, coube à Ho Yeh Li orientar sobre medidas de proteção dentro do voo e explicar a oficiais chineses, em mandarim, que o embarque só ocorreria após avaliação médica. 

"Vamos fazer exames nem que seja no pé da escada do avião", disse ao oficial, que, após resistência, concordou com o pedido. 

Coordenadora da UTI de infectologia do Hospital das Clínicas da USP, Ho afirma que a medida de quarentena em Anápolis (GO) é suficiente para descartar o risco de uma infecção desse grupo.

Nascida em Taiwan, veio ao Brasil com 10 anos e se naturalizou brasileira. É formada em medicina pela USP em 1997, com doutorado em doenças infecciosas e parasitárias pela mesma universidade. Segundo ela, embora a taxa de mortalidade até o momento seja de 2%, a rede de saúde não pode negligenciar o risco do novo coronavírus, uma vez que, por se tratar de vírus novo, pessoas estão suscetíveis. 

"Se o vírus se espalhar como na época do H1N1, não há sistema de saúde que atenda tantos doentes", afirma. 

PERGUNTA - A sra. era uma das pessoas à frente da equipe de saúde que embarcou no voo para trazer os brasileiros que estavam em Wuhan. Que medidas tiveram de ser adotadas?

HO YEH LI - Meu papel foi orientar a equipe de saúde sobre o que é a doença, particularidades em relação a outros vírus e ajudar na organização da área de trânsito. Sabíamos que tínhamos de equipar as pessoas em relação ao risco biológico e fazer o preparo para evitar contaminar outros passageiros. Isso foi importante, porque não havia outros infectologistas, e era a única da equipe. Usamos tudo o que tínhamos para separar as áreas para evitar a contaminação. Classificamos a aeronave em área quente, de maior risco de contágio, que é onde os repatriados ficaram; fria, que era só a tripulação sem nenhum contato; e morna, que era onde a equipe de saúde ficava, porque, além da avaliação antes de embarcar, era preciso fazer uma periódica no voo.

P. - Como foi ao chegar na China?

HL - Tivemos alguns contratempos. Quando a primeira aeronave chegou, os chineses disseram que já tinham feito a avaliação e a equipe não conseguiu atuar. Eu estava na segunda aeronave. Quando abrimos a porta, o oficial chinês disse que todos já iriam embarcar. Acho que peguei ele no susto quando disse em mandarim que não, que era só depois que a gente avaliasse. 'Mas a senhora vai fazer a avaliação onde?', ele disse. E eu: 'Onde você quiser, nem que seja aqui no pé da escada.' [ri] E fomos para a área de desembarque.

P. - O que incluía essa avaliação?

HL - Fizemos aferição de temperatura com o termômetro digital, que não precisa encostar na pessoa. Depois foi feita avaliação da cavidade oral e nasal, para ver se havia secreção. Em terceiro lugar, uma ausculta pulmonar de cada repatriado, para ver se alguém tinha sinais de chiado ou de alguma infecção no pulmão, caso tomou alguma medicação para mascarar sintomas. Não encontramos alteração. Já no voo, ficamos atentos. Se alguém tossisse ou espirrasse, conseguiríamos ouvir. Mas ninguém teve sintomas. 

P. - O que justifica a adoção de uma quarentena?

HL - Nossa cultura não está acostumada. Mas, para uma doença que não tem tratamento específico nem medida de profilaxia, a quarentena é fundamental para evitar a disseminação. Os repatriados estavam dentro do epicentro da doença. A necessidade de vigilância de pessoas que voltaram da região é fundamental. Em quarentena domiciliar, perde-se um pouco o controle. Você pode ficar com medo de alguém saber que você está com sintomas, e não contar a verdade. Isso preocupa não só pelo risco de disseminação, mas também por aumentar a gravidade. A quarentena permite assistência precoce.

P. - E por que 18 dias?

HL - Porque esse vírus, diferente de outros, como a influenza, tem período de incubação [tempo entre infecção e aparecimento de sintomas] maior. Já se sabe que é em torno de 14 dias. Pelo protocolo, colheram exames na chegada e devem colher no 14º dia. Quando o resultado der negativo, o que leva até quatro dias, aí sim serão liberados.

P. - O resultado do exame do 1º dia não poderia já confirmar ou afastar a probabilidade de uma infecção?

HL - A grande questão é que esse primeiro exame pode atestar negativo, mas a pessoa estar incubada ainda em uma quantidade de vírus não suficiente para ser detectada nesse primeiro exame. Entre o período da infecção e o vírus se propagar no organismo e vir a ser liberado, existe um intervalo. Por isso esse primeiro exame não é suficiente.

P. - Deve ficar em quarentena também?

HL - Estou neste momento [segunda-feira]. Mas não estávamos na área de risco, fomos resgatar as pessoas e ficamos no máximo duas horas no território chinês. Todo mundo que saiu do avião também estava com equipamentos de proteção individual superior ao que usamos no hospital, com óculos, máscara e roupa impermeável que cobre até a cabeça, como se estivesse em uma roupa de astronauta. Nosso risco de ter adquirido a doença na China é praticamente zero. Mas como estivemos 48 horas com eles, considerou-se ficar e fazer exames também. Com resultado negativo [o que ocorreu nesta terça, 11], saímos da quarentena aqui e vamos para domiciliar. 

P. - Muitas pessoas demonstram preocupação em relação à quarentena. Há risco?

HL - Não. Esse vírus morre fácil no meio ambiente. E o período de quarentena já é mais do que suficiente para, caso alguém vier a manifestar a doença, tratar por aqui. É preciso entender que essas pessoas não são ameaças à sociedade. 

P. - Como especialista, como avalia o risco de o novo coronavírus entrar no Brasil? Ele deve chegar?

HL - A globalização tem o lado bom e o lado ruim. O risco existe. Mas estamos em uma época de verão, o que diminui a circulação do vírus. Se eventualmente ele perpetuar até o inverno, quando aumenta a aglomeração de pessoas, aí, sim, passa a ser um problema. Caso contrário, o risco é baixo.

P. - É possível conter esse vírus quando chegar ao Brasil?

HL - É possível se todo mundo adotar medidas de higiene. Brinquei para as pessoas aqui: 'O seu melhor amigo é o álcool gel'. Se a mão está suja, limpa. As pessoas doentes também devem evitar sair de casa. Na Ásia é muito comum pessoas doentes saírem de máscara na rua. Eles se preocupam com a saúde do próximo. Precisamos ter esse tipo de atitude também: se estiver doente, evitar sair e ter contato com outras pessoas. 

P. - A descoberta do novo coronavírus colocou países em alerta. Mas dados atuais apontam para uma mortalidade de 2%. Como vê esses dados?

HL - Se comparar com outras doenças, não é tão maior. Mas temos de entender que, sendo um vírus novo, todo mundo está suscetível. Vou dar o exemplo do H1N1 em 2009. É um vírus da gripe que sofreu várias mutações, e boa parte das pessoas abaixo de 45 anos não tinha tido contato, e por isso tomou aquela dimensão. Fazendo a comparação com esse coronavírus, sendo novo, apesar da letalidade não ser tão grande, temos um número de suscetíveis enorme se a doença realmente espalhar para o mundo. Se atinge a mesma dimensão do H1N1, a quantidade de pessoas que pode adoecer é enorme. O mundo tem 8 bilhões de pessoas. Se pegar só um décimo, por exemplo, são 800 milhões. Se pensar que 2% pode morrer, é um número gigantesco.É como dizer que o sistema de saúde não se pode negligenciar nenhuma doença. Exatamente. Se chegar a essa dimensão, não há sistema de saúde que consiga atender tantos doentes.

P. - Quais as principais dificuldades que podemos vir a enfrentar na rede de saúde?

HL - A rede de saúde aqui já iniciou um preparo. Mas temos de lembrar que, se chegar o coronavírus, as outras doenças não vão parar. Vamos continuar com infartados, AVC, acidentes de trânsito, e não temos como parar todo o resto do sistema de saúde só para atender isso. 

P. - A sra. participou recentemente da identificação de outro vírus no Brasil, o da febre hemorrágica brasileira. Novos vírus ainda podem surgir?

HL - São novos vírus, ou estamos identificando agora? Essa febre hemorrágica, por exemplo, que é um arenavírus, e só identificamos porque temos uma parceria com o laboratório de métodos avançados do Einstein. Será que esse vírus estava por aí, ou foi a gente que identificou agora? É mais um motivo para as pessoas não entrarem em pânico. Com o avanço da tecnologia, ainda vamos identificar muitos novos vírus e bactérias, o que não significa que é uma nova ameaça. Talvez seja só uma ameaça que damos nome e sobrenome.

P. - Já este coronavírus era de fato novo...

HL - Sim. Era de uma nova cepa. Mas, se não tivéssemos essa tecnologia atual, não saberíamos.

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