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Brasil dos 100 mil mortos por Covid toca a vida assombrado por vazios

Apenas 5% dos 5.570 municípios brasileiros, de acordo com o IBGE, têm mais habitantes do que essa multidão de mortos que o coronavírus formou. E menos de 90 deles ainda não tinham, até sexta-feira (7), nenhum caso registrado de Covid-19

Brasil dos 100 mil mortos por Covid toca a vida assombrado por vazios
Notícias ao Minuto Brasil

11:30 - 09/08/20 por Folhapress

Brasil Coronavírus

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Às 5h, David e Dierlis precisaram ligar as lanternas de seus celulares. O corpo da mãe, em um caixão lacrado, tinha que ser enterrado. Não havia luz.

Apenas os dois foram autorizados a acompanhar o sepultamento de Aparecida Rodrigues Meneses, 78, no cemitério de Urânia, interior de São Paulo. Era 7 de junho, e uma agonia de 15 dias terminava para outra começar, sem final em vista para os irmãos.

"Era como se estivéssemos fazendo alguma coisa errada. Enterrar correndo, de madrugada, com a luz do celular, sem poder nem ver minha mãe. É muito cruel", diz o policial federal David Meneses, 43.

Assim, no escuro, Cida entrou em uma contabilidade tétrica que, neste sábado (8), cruzou uma barreira tão triste quanto colossal: segundo registros oficiais, pelo menos 100 mil pessoas morreram no Brasil por causa da pandemia do novo coronavírus. O número pode ser maior, pois há indícios de subnotificação.

Apenas 5% dos 5.570 municípios brasileiros, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), têm mais habitantes do que essa multidão de mortos que o coronavírus formou. E menos de 90 deles ainda não tinham, até sexta-feira (7), nenhum caso registrado de Covid-19.

É como se um Maracanã lotado, com mais 22 mil pessoas na porta, sumisse. Uma centena de milhares de vidas e histórias se perderam até aqui, muitas delas na escuridão de dados, dúvidas, protocolos confusos ou desobedecidos.

Hoje, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 160 mil mortos e população 57% maior, em número óbitos.

No dia em que David e Dierlis perderam a mãe, a lista de mortes brasileiras tinha 35.026 nomes. Ao todo, 645.771 pessoas já haviam sido infectadas no Brasil. Dois meses depois, o primeiro número triplicou. O segundo quase quintuplicou. Hoje, dos quase 20 milhões de casos registrados no mundo, mais de 14% ocorreram aqui, embora vivam no país 2,7% dos habitantes do planeta.

Negra, septuagenária e com comorbidades comuns à idade, apesar de forte e disposta, Cida espelha os brasileiros mais atingidos pela doença. Foi enterrada poucas horas depois de morrer em um hospital público de Jales, sem que as pessoas da cidade do noroeste paulista pudessem comparecer ao velório, seguindo regras sanitárias.

"Dois meses antes, ela foi à funerária e comprou uma mortalha, a roupa que queria usar quando morresse. Depois eu soube que ela pediu para que não contassem para mim e para minha irmã", diz David. "Ela nem pôde usar. Foi enterrada dentro de dois sacos plásticos no caixão lacrado."

Apesar das regras rígidas para os sepultamentos, que lotavam cemitérios naquele mês, o Brasil se preparava para seguir o caminho contrário ao dos países com os maiores números de vítimas e ensaiava a reabertura das atividades econômicas, mesmo sem apresentar, então, desaceleração no avanço das mortes.

Na mesma semana em que Cida morreu, o Ministério da Saúde, já sem titular nomeado após a demissão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, atrasava a divulgação de dados da pandemia.

Antes anunciados às 17h, os números passaram a ser tornados públicos às 19h sob Teich. Após pedir demissão, e o posto ser ocupado interinamente pelo general Eduardo Pazuello, às 22h.

Pazuello, mais cordato com os pedidos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para amenizar protocolos da quarentena e ampliar os de uso de cloroquina, remédio sem eficácia comprovada contra a Covid, continua no cargo.

Na véspera da morte de Cida, em 5 de junho, com um mês e meio de atraso Bolsonaro inaugurava o primeiro hospital de campanha federal, em Águas Lindas, Goiás.

Um longo caminho já fora percorrido desde a primeira morte registrada por Covid no Brasil: a do porteiro Manoel Freitas Pereira Filho, 62, em 16 de março, em São Paulo.

Quando ele morreu, o país dava sinais de que a pandemia deixaria efeitos profundos. Mas não tanto. As instituições financeiras consultadas pelo Banco Central haviam revisado suas projeções de crescimento da economia no ano para 1,68%. Hoje, a expectativa é uma retração de 5,7%.

Escolas fechavam as portas, prevendo reabrir em duas semanas. No estado de São Paulo, fechadas permanecem.

Em Urânia, contudo, nada parecia fora do lugar. As perdas que o país começava a acumular chegavam apenas pela TV e pela internet. Foi assim que seus moradores puderam ver naquele 24 de março, Bolsonaro dizer, em pronunciamento de rádio e TV, que a doença era "uma gripezinha".

Toda a família de Aparecida contraiu o vírus. Febre baixa, perda de olfato e paladar, diarreia, dores, falta de ar, os efeitos variaram, mas ninguém escapou de sintomas.

O caso de Cida evoluiu mal. O que ajuda a explicar sua morte é uma espécie de tempestade inflamatória provocada pela Covid em diversos órgãos. As mortes são ligadas à síndrome respiratória aguda grave. Isso significa que grandes áreas de inflamação e edemas se formam no pulmão, dificultando a respiração.

O pulmão não é o único órgão a ser afetado. Pesquisadores descobriram que o vírus se aproveita de uma proteína (ECA-2, em português) na membrana das células para fazer a invasão. Essas proteínas também estão presentes em células do coração, dos rins e até no intestino.

A infecção é mais letal em quem tem doenças cardíacas. Hipertensão, diabetes e obesidade, entre outras, podem elevar o risco de morte.

Cida não tinha problemas sérios de saúde. No dia em que foi levada de ambulância para o hospital de Jales, nem David, nem a irmã, os dois em quarentena, puderam se despedir. A poucas casas de distância, Dierlis via a mãe pela última vez.

A angústia de David não era menor. "A última coisa que ela me falou aqui em Urânia foi: 'Filho, eu não quero ir. Eles vão me levar, vão me intubar e eu vou morrer.'"

Ninguém da família nunca mais a veria viva.

Essa é uma das dores que os parentes das vítimas carregam. A despedida é como um filme em que faltam cenas, um processo que não encontra nunca seu caminho natural.

Um mês antes da morte de Cida no interior de São Paulo, Magnólia Rodrigues, 48, se tornava viúva, no Rio. Em 6 de maio, Celso Rodrigues de Souza, 49, morreu após 16 dias internado em um hospital privado na Barra da Tijuca.

Era o fim de um caminho para o casal que deixara pra trás a pobreza e a comunidade do Esqueleto, na zona oeste carioca, e se estabelecera na Barra após anos de trabalho.

O país registrava no dia da morte de Celso 7.921 óbitos causados pela Covid-19 –menos do que as mais de 8.400 mortes que registra hoje, sozinha, a cidade do Rio.

O que viria a se tornar item indispensável, a máscara, ainda não era realidade cotidiana. Em São Paulo, o governo acabara de divulgar as regras para o uso obrigatório no estado. No Rio, a prefeitura tratava de se defender da repercussão negativa por ter distribuído máscaras de papelão.

Na Barra, a família de Magnólia havia seguido à risca as regras de proteção. Ela, Celso e o casal de filhos evitaram saídas desnecessárias. Não foi suficiente para Celso estar vivo.

"É uma separação brutal, injusta", diz Magnólia. "Você se separa para sempre da pessoa quando ela é internada."

Dias após a morte de Celso, Magnólia teve que procurar um médico. "Passei a sentir muita dor, física, dor de verdade, pela ausência dele. Comecei a tomar [o ansiolítico] Rivotril", afirma. "Todo dia eu tinha a sensação que ele ia chegar. Até o dia em que tive que me olhar no espelho e dizer pra mim mesma: 'Ele não vai voltar mais, nunca mais'."

O DJ e promotor de eventos Adipe Miguel Neto, 39, soube disso assim que seu pai Adipe Filho, 64, foi internado. Uma doença autoimune já comprometia cerca de 70% do pulmão. Adipe pai morreu após três dias na UTI, em 6 de abril.

"Esses três dias dele sozinho me perseguiram por muitos dias. Será que ele se sentiu amado, acolhido, ele viu o filme da vida dele passar? Você fica sem saber", afirma.

À dor de David, Dierlis, Magnólia e Adipe milhares de outros brasileiros se somam. Entre eles, a psicóloga Paula Severo, 36, o marceneiro Moisés Antônio de Oliveira Prestes, 40 e a pedagoga Anna Magdalena Santana, 38, e uma tribo guarani inteira em Angra dos Reis.

Professor de engenharia florestal na Unesp de Botucatu, Elias Taylor Durgante Severo, 64, não tinha problemas de saúde, diz Paula, sua filha. Morto em 3 de julho, passou uma semana internado. "Ele era meu porto seguro, o que amparava a gente, protegia."

Elias seguia à risca a quarentena, mas um dia, cansado do isolamento, acabou saindo de casa e se expôs. "As pessoas precisam saber que não estão seguras. Bastou um dia."

O marceneiro Moisés Antônio de Oliveira Prestes, 40, nem espera que cicatrize. Há quatro anos, a mãe morreu em seus braços. Neste sábado, completará um mês que ele se viu diante do corpo do pai, Reinaldo de Oliveira Prestes, 73, na UTI do Hospital Geral de Cotia, São Paulo.

"Quando cheguei ao hospital, uma médica disse que não tinha notícias boas. Ouvi o que ela dizia, mas não conseguia processar. Quis ver, quis tocar no meu pai. Não acreditava."

Mais velho de cinco filhos, coube a ele informar a família. "Desabei. Eu tenho que ser a referência para os outros [irmãos]... Fui testemunha e portador das duas piores notícias de toda a vida deles", diz.

No dia seguinte à morte de Reinaldo, os 26 anos de convivência de Anna Magdalena Santana, 38, com o marido César Augusto Severo, 46, chegaram ao fim. Além do casal, a filha também contraiu o novo coronavírus. Sabrina Santana Severo, 15, e o pai foram internados no Hospital Regional da Asa Norte, em Brasília.

"No dia em que a Sabrina teve alta, estava no Uber, quando ele me ligou para avisar que iria ser intubado. Ele já sabia o que ia acontecer... começou a ligar para a família e se despedir, eu fiquei sabendo depois", diz Anna. "A única coisa que pedi quando ele morreu foi que não colocassem ele naquele saco, que não enrolassem ele naquele saco."

Em Angra dos Reis, a maior aldeia indígena do estado do Rio de Janeiro, dos guaranis sapukai, vive o luto coletivo pela morte do cacique Domingos Venite, 68, em 21 de julho. Segundo a prefeitura, dos 340 indígenas na aldeia, 85 contraíram a doença. "No começo da pandemia, fizemos palestra, pensamos em bloquear a entrada, mas infelizmente as pessoas foram saindo de suas casas. Muita gente teve que sair para receber o auxílio emergencial", diz o professor Algemiro da Silva Mirim.

Pouco menos de cinco meses separam o registro da primeira vítima de Covid do dia em que em o país ultrapassou a marca das 100 mil mortes. Nesse período, o número de pessoas que tiveram sua infecção por Covid confirmada supera 3 milhões –apenas três cidades brasileiras, São Paulo, Rio e Brasília, comportam mais gente do que isso.

Na economia, os reflexos ficaram mais claros. No segundo trimestre do ano, 8,9 milhões perderam o trabalho.

O país e o mundo esperam a chegada de uma vacina. No Brasil, o estado de São Paulo se prepara para começar a produzir ainda neste ano o imunizante, em uma parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac.

Bolsonaro destinou R$ 1,9 bilhão para a compra de outra vacina, testada pelo laboratório AstraZeneca e pela Universidade de Oxford. Disse ter a consciência tranquila e que fez "o possível e o impossível" para salvar vidas no país.

Sobre as 100 mil mortes, o presidente disse que é preciso "tocar a vida".

Todos os entrevistados nesta reportagem cumprem o que aconselha Bolsonaro e tocam a vida. O que não apaga as seguintes notícias:

"Sua mãe não aguentou, David. Ela morreu."

"Me dá sua mão, Adipe. Agora você precisa segurar na mão de alguém. Seu pai faleceu."

"Seu marido...ele faleceu, Magnólia. Sinto muito."

"Moisés, seu pai acabou de falecer."

Magdalena entendeu antes de ouvir. "Ele não precisou dizer nada. Apareceu na minha porta com os olhos vermelhos. O meu irmão nunca chora. Sabia que meu marido estava morto."

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