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Número de nascimentos cai em SP nove meses após início de pandemia

A história de Karen, dona de casa, é apenas uma das diversas sagas de mulheres da capital paulista que engravidaram antes de saber que a Covid-19 mataria mais de 220 mil pessoas no país, marca ultrapassada neste início de ano, após alta no número de contágios

Número de nascimentos cai em SP nove meses após início de pandemia
Notícias ao Minuto Brasil

12:00 - 31/01/21 por Folhapress

Brasil REGISTRO-NASCIMENTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRES) - Quando as mortes de brasileiros por Covid-19 começaram a aparecer no noticiário, em março do ano passado, a dona de casa Karen Mirelle Lacerda da Silva, 24, estava grávida de oito meses.


Ela diz que sentiu pânico porque não sabia quais efeitos a doença poderia ter em gestantes e nos bebês.


A história de Karen é apenas uma das diversas sagas de mulheres da capital paulista que engravidaram antes de saber que a Covid-19 mataria mais de 220 mil pessoas no país, marca ultrapassada neste início de ano, após alta no número de contágios.


Com as diversas medidas recomendadas ainda no início da pandemia, que mudou hábitos em todo o mundo, também o comportamento de casais do município passou a refletir o medo do que vinha pela frente, com planejamentos familiares de procriação suspensos. Nove meses depois, esse medo se refletiu no esvaziamento das maternidades paulistanas.


Em outubro de 2020, houve uma queda de 4% nos nascimentos de paulistanos quando a comparação é feita com o mesmo período de 2019. Em novembro, a redução foi de 4,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior, com nascimentos de bebês gestados em março, em sua maioria.


Já no mês de dezembro, esse índice teve uma redução de 10% na comparação do número de nascimentos com relação ao mesmo mês de 2019. Estes foram os bebês concebidos majoritariamente em abril, um mês após o anúncio das primeiras mortes por Covid-19 no país. Os números são do Sinasc, Sistema de Informação Sobre Nascidos Vivos, da cidade de São Paulo.


Mães e pais ouvidos pela Folha relataram problemas econômicos, de saúde e outros derivados do isolamento nesse período.


A filha de Karen, Isabella, nasceu no dia 19 de abril, após complicações no parto que exigiram uma cesariana. Nos três dias seguintes em que esteve internada, só pôde ser visitada pelo marido, um pizzaiolo, no intervalo máximo de dez minutos diários, por causa de protocolos de isolamento estabelecidos pelo hospital. No restante do tempo, ficava sozinha com a filha.


Karen conta que a idealização de um pós-parto cercado pelo afeto dos amigos e de familiares foi por água abaixo, o que lhe custou uma depressão.


"Antes, eu achava que iria ser tudo perfeito, lindo. E não foi. Sozinha com o bebê, eu me sentia muito desamparada. Senti muita tristeza. Não tinha quem me ajudasse", conta.


Ela relata que o isolamento deixou a sensação de que sua filha não era importante para a família. "Fiquei perdida. Não me sentia boa mãe, por me sentir triste."


Alguns dias depois de chegar em casa, os pontos da cesariana começaram a abrir por conta de esforços físicos exigidos, uma vez que aqueles que poderiam ajudá-la estavam distantes, diz.


O marido tinha que trabalhar entre 16h e meia-noite. A mãe, diarista que mora em São Bernardo do Campo (ABC), era do grupo de risco e foi privada de contato com a neta. A família pôde contar, porém, com o valor pago pelo auxílio emergencial, que não será retomado pelo governo federal, mesmo com nova alta nos casos de Covid.


Quando a filha de Karen tinha dois meses, o teste da mãe deu positivo para Covid. A preocupação e os cuidados redobraram, mas a filha também acabou contraindo a doença, apresentando sintomas leves.


A saga causou uma aproximação mais forte entre mãe e filha, com traços de dependência da criança, afirma.


"Minha filha só fica comigo. É muito apegada. Eu não esperava que duraria tanto tempo essa pandemia, que privaria ela de conhecer o mundo, de conhecer familiares pessoalmente", diz Karen.


Mestre em psicologia e autora do livro Infância na Gestalt-terapia (Summus Editorial), Rosana Zanella faz um alerta sobre as chances de as crianças "ficarem mais grudadas" com os pais durante esse período.


"As crianças podem criar um apego muito grande e, talvez, uma maior dependência e, com isso, ficar com menos autonomia. Mas se as mães incentivarem as crianças a fazer atividades sozinhas, elas vão aprender", diz.


A psicóloga criou grupos de WhatsApp para que mães e gestantes pudessem trocar experiências no período de isolamento e enfrentar dificuldades derivadas.


A queda no número de nascimentos de bebês agora é parecida com a que houve entre 2015 e 2016, na epidemia do vírus da zika, quando os 198.454 nascimentos anuais na cidade de São Paulo caíram para 189.052.


Por causar microcefalia, a Síndrome Congênita do Zika Vírus atingiu mais os bebês do que a Covid-19. A queda de nascimentos permaneceu após 2016 e se acentuou entre 2019 e 2020, com 177.624 e 163.533, respectivamente.


O registro na queda do número de nascimentos poderá ter influência na taxa de fecundidade dos brasileiros, que chegou a 6,2 filhos na década de 1950 e já vinha sofrendo redução progressiva, tendo atingido 1,8 entre 2010 e 2020.


As mulheres que adiaram a gravidez no período de pandemia evitaram diversos riscos. Gestantes têm maior chance de desenvolver a doença na forma grave, com risco elevado de morte, segundo estudo dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.


A secretária Tenile Graziela Garbini dos Santos, 31, chegou ao hospital e maternidade São Luiz Itaim com Covid-19, no fim de novembro, com oito meses de gravidez. Apresentava sintomas de gripe e insuficiência respiratória. Com problemas pulmonares, precisou ser internada.


Ficou dois dias no quarto e foi para a UTI, onde recebeu a notícia de que seu filho nasceria antes de ela entrar em trabalho de parto.


Precisou tomar anestesia geral, passou pela intubação antes da operação e não se lembra do parto, realizado às pressas, sob o risco de que tanto a mãe quando o bebê pudessem morrer.


Samuel nasceu com oito meses no dia 1º de dezembro. Após o nascimento, ela precisou voltar a passar pela intubação.


Antes, ligou para seu marido e disse "se eu não voltar, casa de novo e arruma uma mãe para criar meu filho. Mostra fotos minhas para o Samuel, não deixa ele me esquecer", conta. Hoje os dois estão saudáveis e esperam o momento de poder tomar a vacina contra o coronavírus.


O isolamento social, na avaliação de médicos e psicólogos ouvidos pela reportagem, acabou estreitando a relação entre pais e filhos nesses primeiros meses de vida do bebê.


Essa proximidade permitiu a diversos casais algo que muitos pais sempre desejaram: ficar em contato com a criança o dia inteiro até ela completar um ano e começar a ter mais autonomia.


"As pessoas tinham perdido o hábito de ter maior contato com os filhos, e acho que esse maior contato vai fazer bem para o bebê", diz Márcia Costa, diretora da maternidade do Hospital São Luiz Itaim.


"A falta de convívio com outras crianças pode trazer traço de personalidade e alguma agressividade em um primeiro contato, mas as crianças resgatam isso. Elas são muito adaptáveis e flexíveis", diz.


"A presença dos pais ajuda a criança a adquirir segurança", opina o ator e diretor de teatro e cinema André Guerreiro Lopes.

"Esse ninho de afeto faz muita diferença. Não lembro da última vez na vida que tive uma interrupção tão grande de atividades. A gente vinha em um fluxo ininterrupto de trabalho, e a Luna acabou chegando no meio dessa interrupção involuntária", diz ele sobre a chegada da filha há seis meses.


"O período de gestação foi vivenciado intensamente, cada dia, cada momento. A perspectiva do que virá ainda é muito nebulosa, sobretudo economicamente na área artística, teatral.

Mas nós estamos vivendo cada instante. A gente está completamente presente a cada momento desse desenvolvimento", afirma Lopes.


"Mas penso em como como ela vai reagir no contato com outras pessoas. Na nossa experiência, por ela estar tendo esse vínculo muito forte conosco, ela é muito segura. Nos poucos encontros que a gente teve com avós, ela foi extremamente aberta e receptiva", diz ele sobre o isolamento vivido com a mulher, Djin Sganzerla, em uma casa na Serrinha do Alambari (RJ), próximo a Visconde de Mauá.


"Houve gente que perdeu pai, perdeu mãe, perdeu outros familiares durante a pandemia, e os bebês também nascem nesse período", diz Mônica Ferreira, Médica da Enfermaria de Pediatria da Santa Casa de São Paulo. Para ela, essas crianças também simbolizam, sobretudo, um pouco mais de esperança.

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