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Com marcas de agressões, presos no Jacarezinho dizem ter visto assassinatos e carregado corpos

Os agentes teriam entrado nas residências pulando muros e lajes ou batendo nas portas, momento em que os homens teriam sido revistados e então torturados

Com marcas de agressões, presos no Jacarezinho dizem ter visto assassinatos e carregado corpos
Notícias ao Minuto Brasil

11:38 - 09/05/21 por Folhapress

Brasil Violência

Homens presos na operação da Polícia Civil que deixou 28 mortos na comunidade do Jacarezinho na quinta (6), a mais letal da história do Rio de Janeiro, relataram em audiência de custódia terem sido agredidos, ameaçados e obrigados por policiais a carregar corpos naquela manhã, segundo a Defensoria Pública.


Dos seis suspeitos que foram detidos, quatro foram acompanhados pela defensoria durante os depoimentos à autoridade judicial neste sábado (8). Desses, três possuíam marcas físicas de violência e um narrou ter visto policiais assassinando dois homens dentro de uma casa.


Segundo a defensora Mariana Castro, coordenadora do Núcleo de Audiências de Custódia que participou das audiências, eles estavam em locais diferentes e foram presos por volta das 6h em circunstâncias distintas, sendo que todos afirmam terem sido abordados em casas próprias ou de parentes.


Os agentes teriam entrado nas residências pulando muros e lajes ou batendo nas portas, momento em que os homens teriam sido revistados e então torturados. Eles têm entre 20 e 30 anos, em média, e seus nomes não foram divulgados.


"Citaram socos, chutes, coronhadas, agressões psicológicas, ameaças de morte. Disseram que foram obrigados a carregar corpos para caveirões, o que também indica que houve desfazimento de cenas de crime. Um deles ainda relatou que presenciou a execução de duas pessoas detidas dentro de uma casa. Puseram ali e executaram com tiros de fuzil", diz.


De acordo com ela, um dos presos estava com o olho roxo e hematomas nas pernas, outro com escoriações na cabeça e nos braços, um terceiro também com o olho roxo e escoriações nos tórax, e o quarto não tinha marcas visíveis, apesar de ter relatado agressões e demonstrado consequências psicológicas.


Todos eles passaram por exame médico no IML (Instituto Médico Legal), como de praxe, mas alguns disseram não terem relatado as agressões naquele momento porque policiais civis teriam ficado dentro da sala com os peritos.


Por isso, o juiz da audiência de custódia determinou que sejam feitos novos exames, ainda sem data para ocorrer. A Defensoria solicitou que eles sigam o chamado Protocolo de Istambul, uma espécie de manual da ONU (Organização das Nações Unidas) que ajuda a detectar indícios físicos e psicológicos de tortura.


"Foram relatos de uma das maiores violações de direitos que já vi na minha carreira. As narrativas foram de muito sangue, muitos mortos pelo chão, carregar corpos enviscerados, além das agressões psicológicas e físicas. Foi bastante impactante", afirma Castro.


Ainda segundo ela, os suspeitos narraram que policiais entraram em todas as casas em uma determinada região. "Independentemente de informação ou mandado. Entraram indistintamente. Narraram ter visto muito móveis e janelas quebradas nas casas das pessoas e os corpos", acrescenta.


Apesar de terem sido presos na manhã de quinta, a defensora diz que os homens só foram levados para o presídio José Frederico Marques, em Benfica (centro do Rio), na tarde desta sexta, o que não permitiu que as audiências de custódia fossem realizadas no prazo obrigatório por lei.


"Em tese eles têm que ser transferidos em 24 horas. A Polícia Civil não apresentou justificativa para a demora na condução deles para Benfica para serem incluídos em pauta para as audiências", afirma Castro.
Questionada, a Polícia Civil respondeu que o procedimento padrão é encaminhar qualquer detento para a Secretaria de Administração Penitenciária após as formalidades da prisão, e que não cabe à corporação a apresentação deles em audiência de custódia.


"No caso específico, a formalização terminou no fim da tarde de quinta por se tratar de uma operação de grande porte e com a iminência de ter outros presos. Eles passaram a noite na Polinter, na Cidade da Polícia, e foram encaminhados, logo na manhã de sexta, para o presídio de Benfica", informou em nota.
Os presos relataram ao juiz que ficaram a maior parte desse tempo na Cidade da Polícia, complexo de delegacias localizado ao lado da favela do Jacarezinho. Um deles narrou ter sido agredido também ali, enquanto estava sendo ouvido por policiais, e ter ficado sem alimentação.


Dos seis suspeitos, um foi preso em flagrante, dois foram alvos de mandados de prisão, e os outros três foram detidos tanto por flagrante quanto por mandados, alguns por crimes antigos. Os flagrantes foram sempre por porte de entorpecentes, o que os homens negaram.


Segundo a defensora Mariana Castro, os laudos de perícia das drogas apreendidas apontaram mais irregularidades. Elas não estariam acondicionadas em sacos plásticos e lacradas, com o registro de quem teve acesso ao material, como é previsto.


A operação no Jacarezinho teve como alvos 21 réus sob acusação de associação ao tráfico. A denúncia do Ministério Público contra eles tem como base fotos publicadas em redes sociais em que aparecem armados, mas não cita homicídios, aliciamento de menores e sequestro de trens como divulgado pela Polícia Civil.


A corporação afirma que respeitou as exigências do STF (Supremo Tribunal Federal), que não houve "execuções" nem torturas e que toda a ação foi realizada dentro da legalidade, em legítima defesa. Também diz que 25 dos 27 civis mortos tinham registro na ficha criminal e "há provas consistentes" de envolvimento dos outros dois com o tráfico de drogas.


Os registros de ocorrências desses óbitos mostram que eles aconteceram em 12 pontos distintos da comunidade, com envolvimento de 29 policiais nos homicídios, sob investigação. Há menção de perícia de local em apenas dois desses locais.

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