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Fechados por causa do coronavírus, cinemas tentam sobreviver ao colapso

Nesta semana, a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, decidiu destinar recursos do Fundo Setorial do Audiovisual

Fechados por causa do coronavírus, cinemas tentam sobreviver ao colapso
Notícias ao Minuto Brasil

13:36 - 23/04/20 por Folhapress

Cultura Pandemia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando ainda começava a ficar claro quão grave seria o impacto do novo coronavírus no cotidiano de todos, o governador de São Paulo, João Doria, foi à TV em meados de março ler num papel uma lista de orientações, entre elas a de que os cinemas ficassem fechados por um mês. Todos escutaram, as salas fecharam, esses dias se passaram -mas ninguém sabe quando as portas vão abrir de novo. Nem como.

"É como se fosse um casal que se separou e vai voltar", reflete Adhemar Oliveira, diretor do circuito de salas Itaú, sobre a relação do público com esses espaços. "Tem que ter a sabedoria de que a coisa não vai ser a mesma de antes."

Nesta semana, a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, decidiu destinar recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, que é financiado pela própria indústria, para abrir linhas de crédito como meio de salvaguarda às empresas da área, com atenção especial para as exibidoras. O montante total de empréstimos, ainda não liberados, deve chegar a R$ 400 milhões.

É um respiro significativo para um dos primeiros setores a suspender totalmente suas atividades durante a pandemia -já que a base do negócio é aglomerar gente dentro de um espaço fechado-, mas ainda paira sobre o cinema uma enorme indefinição.

Quando as salas reabrirem, não se sabe se prevalecerá no público o medo de multidões ou o desejo de voltar correndo para a sala escura. Talvez um misto estranho dos dois.

Ninguém tem certeza de nada. André Sturm, dono do Petra Belas Artes, diz esperar uma reabertura em maio -sua fonte é "única e exclusivamente o otimismo". Oliveira, do Itaú, tem consciência de que a reativação completa "será um processo demorado". Jean Thomas Bernardini, diretor do Reserva Cultural, está trabalhando, por segurança, com outubro ou novembro.

No plano de reabertura delineado pelo presidente Donald Trump para os Estados Unidos, os cinemas estavam lá no fim da linha, sem cronograma definido.

A verdade é que não dá para cravar nada a caneta por aqui também, porque além da paúra dos espectadores com o contato alheio e da necessidade de seguir as orientações de saúde pública, tudo depende muito da distribuição de filmes. Os grandes estúdios em Hollywood têm adiado ou suspendido suas estreias, e o período do verão americano ficou mirrado em lançamentos até agosto, pelo menos.

Sturm diz estar certo de que o Belas Artes reabrirá com a programação que estava em cartaz antes da quarentena, e outros cinemas de arte podem se virar bem atraindo cinéfilos com mostras temáticas. Mas não há opções tão óbvias para empresas maiores e mais comerciais.

É preciso ter em mente que pode ser mais barato para um cinema ficar fechado do que arriscar abrir sem público, voltando a ter mais gastos de infraestrutura e pessoal, sem retorno equivalente.

Há diferenças essenciais, ainda, em como o fechamento das portas afeta a estrutura de uma grande rede internacional, como a americana Cinemark, que tem 640 salas em 17 estados brasileiros, e um cinema de arte como o Reserva Cultural, que tem dois endereços, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"O cinema de rua é mais frágil, mas o público cinéfilo talvez seja o primeiro a voltar a frequentar", diz Bernardini, do Reserva. "No nosso tipo de cinema, tem uma média de público relativamente fiel. Isso pode ser uma vantagem na retomada."

O sentimento é compartilhado por Fabio Lima, diretor da agregadora de vídeo sob demanda Sofá Digital, que vê uma empatia maior com o cinema de rua. "Num mundo pós-coronavírus, tem mais chance de essas salas conseguirem um patrocínio, um benefício público ou operar abaixo da capacidade do que uma rede grande, que se movimenta como um transatlântico e tem muito mais dívidas."

Nos Estados Unidos, já se fala abertamente sobre a possibilidade de falência da principal exibidora, AMC, que detém 634 complexos de cinema na América do Norte e acumula US$ 4,9 bilhões em dívidas, cerca de R$ 25,7 bilhões, segundo a revista Variety. A empresa vem tentando contornar a situação com a venda de dívidas.

Grandes franquias que operam no Brasil, como a Cinemark, a Cinépolis, com 422 salas, e a Kinoplex, com 271 salas, não quiseram falar sobre seus planos. Mas o medo de quebradeira quando a receita vai a quase zero é comum em negócios de qualquer setor.

Por isso, as salas têm sido criativas. Para compensar o fechamento de seus nove complexos de cinema, o grupo Playarte passou a entregar, via Rappi, produtos da bombonnière como pipoca gourmet, pizza e churros. O Cinemark fez parceria semelhante depois com o iFood.

O Belas Artes, que já tem a cervejaria Petra ajudando nas finanças, criou uma vaquinha online que já bateu a meta original de R$ 50 mil, com mais de 600 contribuições individuais -o crowdfunding continua aberto até 5 de maio.

E o Reserva Cultural se vê pensando em recorrer a patrocínios, algo a que sempre foi resistente -por isso, quem entra no cinema da avenida Paulista vê um pequeno shopping autossuficiente, com livraria e restaurante, que equilibram as contas.

Esses tempos de quarentena são promissores para o streaming, segundo Fabio Lima, do Sofá Digital, mas não é como se o frequentador de cinema fosse passar a ficar em casa, trocando as telonas pela telinha de vez -porque é provável que esse espectador já equilibrasse os dois hábitos, do cinema e do consumo doméstico.

Na verdade, o contexto favorece a formação de um novo público, diz ele. "Esse momento acelera a educação de gente que estava no limbo, que não ia ao cinema e estava órfã do DVD. Essa pessoa vai melhorar a sua infraestrutura e controlar melhor o orçamento para o serviço sob demanda."

Saíram na frente, argumenta Lima, os exibidores que souberam surfar junto no streaming. Num momento como o de agora, em que seu principal produto fica fechado, eles ainda podem manter não só alguma receita como o vínculo com seu público.

"O mundo do audiovisual está em dois extremos", diz Laís Bodanzky, cineasta e presidente da Spcine, empresa pública de cinema de São Paulo. "As salas de exibição e as filmagens foram totalmente atropeladas, e o espaço de exibição digital está indo bem como nunca, porque passou a ser uma ferramenta fundamental nessa reclusão."

Ela diz ter se impressionado com o grau de aumento da procura pelo serviço de streaming Spcine Play neste período de quarentena. Em um mês, houve 155% mais acessos do que em todo o período acumulado desde a abertura, em outubro de 2018 -é preciso lembrar que o conteúdo da plataforma se tornou 100% gratuito durante a quarentena, e Bodanzky pretende que isso se estenda até o fim do ano.

A plataforma Petra Belas Artes à la Carte, que também abriu seu catálogo até o fim do mês, observou uma entrada de 50 mil inscritos nos 15 primeiros dias de abril. Já a Netflix ganhou quase 16 milhões de assinantes no mundo todo no primeiro trimestre.

Mas, mesmo com a alternativa de ver filmes em casa, Bodanzky não minimiza a importância dos cinemas. "Não que a minha sala não seja confortável, mas minha atitude para o filme no cinema é mais completa."

Está difícil ver a luz no fim do túnel e, por ora, todo mundo está tateando no escuro. Mas Bernardini sublinha que "fechar uma tela, independentemente de perder dinheiro, é uma perda para o país".

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