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Em Portugal, brasileiro lança livro sobre separação entre os povos

Fotojornalista Raphael Lima percorreu cidades do Leste Europeu durante 25 dias. Experiência é lançada nesta quinta-feira (1º), pela editora Ímã, em Lisboa, onde o autor é radicado

Em Portugal, brasileiro lança livro sobre separação entre os povos
Notícias ao Minuto Brasil

11:39 - 01/03/18 por RAQUEL LIMA

Cultura Sociedade

'Sociedade Dividida: Iugoslávia' era para ser um relato das impressões de um fotojornalista sobre os Bálcãs, após 25 dias de imersão. Ao contrário do que defende o autor, Raphael Lima, na apresentação, as 200 páginas publicadas agora pelo projeto Motor Editorial, da editora Ímã, são demasiado íntimas para serem registros. São como um diário, que tanto expõe a intimidade do brasileiro de 31 anos, quanto desnuda o cotidiano cru das ruas desgastadas pela guerra, e que ainda carregam balas na arquitetura.

O livro, que vai ser lançado às 18h30 desta quinta-feira (1º) na Livraria Bar Menina e Moça, em Lisboa (Portugal), é, em si, uma quimera. Começou, em 2014, quando o autor visitou a Croácia e a Eslovênia, e ganhou força quando Raphael viajou para Belgrado, em 2015.

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Ao deixar Copacabana, no Rio de Janeiro, para viver na Praça de Espanha, em Lisboa, há pouco mais de dois anos, Raphael Lima sentiu que era o momento de “contar um pouco da Iugoslávia desde a morte de Tito [o Marechal Josip Broz Tito], em 1980, até os dias de hoje”.

Com o plano de viagem (por terra, ônibus e trem) pronto, o jornalista colocou a mochila nas costas e, em março (“18 anos depois da primeira bomba; 29 anos depois do primeiro Big Mac”), desembarcou em Belgrado. “É bom visitar um destino mais do que uma vez. Você já sabe o que fazer e parece estar chegando em algo como a própria casa, onde você já conhece o caminho do banheiro”, relata. Na tal mochila, uma Leica XL digital, com lente 35mm; uma Nikon F2 analógica, com lentes de 24mm e 50mm. “Quando necessário, usava o iPhone também”, completa. Além das máquinas fotográficas, um PC, um gravador e uma câmera de filmar - “para captar algumas imagens e entrevistas”.

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No epitáfio do ex-país, que há 40 anos era parte do estandarte comunista mundial, Lima usa, além de fotografias em preto e branco, textos sobre o que viu e ouviu, para dimensionar a vida de hoje em cidades como Vukovar, na fronteira da Sérvia com a Croácia. Palco de uma das piores batalhas das guerras de separação da Iugoslávia, Vukovar ainda tem as ruas desertas. “Andei de volta para a estação sem cruzar com ninguém”, revela o autor.

A narração de uma partida de futebol entre o Estrela Vermelha (Cvrena Zvezda, em sérvio) e o Spartak Moscou, em Belgrado, saem da frugalidade em 'Sociedade Dividida: Iugoslávia'. No estádio apelidado de Marakana, em homenagem ao Maracanã brasileiro, Lima festeja o futebol que respira “fora dos moldes da FIFA” e “longe de orçamentos milionários”, mas fundamenta a cooperação histórica entre os dois países. “Já ia me esquecendo: Estrela Vermelha 2 x 1 Spartak Moscou. De virada”, avisa. De frente ao Rio Drina, em Sarajevo, o autor relata ter-se lembrado de “todos os rios que viu na vida". Na cidade, que o fez se sentir “dentro do projeto”, passou por barricadas e ficou “sem pão”.

Por entre as conversas que integram o livro, a com os fotógrafos iugoslavos Marko Risovic e Nemanja Pancic; a com Nermin Vlajcic, agente da polícia recrutado para a guerra aos 18 anos; a com Vujadin Vujadinovic, defensor de Tito e sobrevivente do bombardeio da NATO, a Podgorica, em 1999; e a com um português que atua como agente de imigração em Montenegro.

Com o Notícias Ao Minuto, Raphael Lima conversou sobre o que lhe causou surpresa no Leste Europeu e opina sobre a utopia e fratura social. Confira.

Depois de duas expedições por sociedades divididas, Terra Santa e Iugoslávia, tem uma opinião sobre por que razão algumas sociedades se dividem, enquanto outras persistem - ou é uma questão de tempo: a sociedade foi feita para ruir?

Geralmente, as sociedades quebram por conta de outras. A Palestina é um exemplo claro disso, basta ver o comportamento de Israel, com o apoio norte-americano, sobre o território. Por mais que, ao longo do século XX, a Palestina tenha perdido algumas oportunidades de selar a paz, o que acontece lá hoje é um claro sinônimo de apartheid. E sim, dificilmente, as sociedade conseguem manter-se firmes e coesas por muito tempo, principalmente por conta da indústria bélica, entre outros motivos.

Então, a ideologia de uma sociedade envelhece?

Envelhece a partir do momento em que a nostalgia prevalece sobre a racionalidade, e a impede de avançar. Os tempos mudam, algo criado lá atrás não necessariamente se encaixa com as mesmas medidas no mundo atual.

Qual era a sua relação com a fotografia antes do primeiro livro 'Sociedade Dividida: Terra Santa' (Independente, 2015)?

Comecei a fotografar depois de ler o livro 'Clube do Bang-Bang', há uns 10 anos. Contava a história de fotógrafos sul-africanos que trabalharam no país e cobriam, principalmente, os atritos causados nos últimos anos do apartheid e os primeiros após o fim, antes de Mandela ser presidente. Daí para frente, andava sempre com uma máquina no bolso. Fui adiando o sonho já que sem portfólio só conseguia emprego de repórter nas redações, nunca de repórter fotográfico. Mas de 2010 em diante, comecei profissionalmente.

Qual a lição pessoal que o trabalho de campo lhe trouxe?

Que nunca se pode contar uma história ouvindo apenas um lado.

Que outro lado é esse que viu?

A história da desintegração iugoslava tem muitas frentes. E todas elas têm as suas razões. Por isso é difícil tomar partido, principalmente, se baseados no que contam os media ocidentais.

Qual foi o dia mais marcante de todo trabalho de campo na ex-Iugoslávia?

O dia em que cheguei a Sarajevo. Foram oito horas de viagem, pensando numa cidade que ocupou o meu imaginário desde os anos 1990.  Chegar lá, foi ver ao vivo tudo que minha imaginação construiu nesses 17 anos.

O que esperava e o que encontrou em Sarajevo?

Esperava uma Sarajevo recuperada da guerra. Não fazia ideia de que a memória do conflito era tão presente daquela forma. Você não precisa de entrar num museu para se recordar do que aconteceu, como quando fui a Hiroshima, por exemplo. Basta caminhar na rua.

Qual o próximo projeto?

Pela proximidade, já que moro em Lisboa, posso fazer algo na Espanha, já que a crise na Catalunha reacendeu pavios no país. Ou mesmo contar a história de algumas regiões separatistas, como Transnístria (Moldávia), Nagorno-Karabakh e Chipre do Norte. Todas num mesmo livro.

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