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Premiada em Cannes, comédia tem personagem inspirado em C. Ronaldo

O personagem-título da comédia "Diamantino" não é exatamente o camisa sete da seleção lusitana.

Premiada em Cannes, comédia tem personagem inspirado em C. Ronaldo
Notícias ao Minuto Brasil

15:10 - 06/08/18 por Folhapress

Cultura Diamantino

Enquanto dribla, Cristiano Ronaldo imagina enormes cachorrinhos felpudos envoltos em névoa cor-de-rosa. Recostado em almofadas que trazem o seu rosto estampado, ele sonha "adotar um refugiadinho" a quem serviria crepes de Nutella. Ou quase isso.

O personagem-título da comédia "Diamantino" não é exatamente o camisa sete da seleção lusitana, mas um atleta que em tudo remete à figura do jogador -do topete lambido ao seu folclórico narcisismo. 

Vencedor da Semana da Crítica, no Festival de Cannes, a sátira dirigida pelo português Gabriel Abrantes e pelo americano Daniel Schmidt usa a figura de um craque milionário para desancar a hipocrisia do mundinho pop, a desagregação europeia, a ascensão da extrema direita, o colonialismo e, ufa, o sebastianismo.

O filme está na competição do Cine Ceará, que acontece nesta semana, e entrará em circuito comercial no Brasil em janeiro do ano que vem. Seu protagonista Carloto Cotta, de "Tabu", interpreta Diamantino, artilheiro em crise após perder um pênalti em final de Copa. Ele busca preencher o vazio virando pai de um refugiado. Suas duas irmãs, gêmeas que parecem o elo perdido do clã Kardashian, manobram para fazer dele um garoto-propaganda de uma versão lusa do "brexit". O lema é "Portugal nunca foi pequeno".

O roteiro tresloucado fez a revista Hollywood Reporter comparar o filme a uma mistura de Pedro Almodóvar do começo da carreira e um John Waters sob efeito de ecstasy. Na Variety, a obra foi descrita como o "endosso mais sexy que o cinema poderia fazer em prol da União Europeia". "Ao pensar em Portugal, na cultura das celebridades e no status do esporte como um culto, o futebol se impunha como um tema óbvio", afirma Schmidt, a metade americana da dupla de diretores. Ele encontrou em ensaios do escritor conterrâneo David Foster Wallace a tese de que os atletas são os sucessores de uma aspiração histórica por transcendência.

"Enquanto a religião perde adesão no mundo e a arte vira mais elitista e conceitual, o esporte toma a dianteira como inspiração das massas", diz o diretor. A abertura do longa ilustra bem a ideia. Enquanto a câmera sobrevoa um estádio lotado, a narração do protagonista compara essas novas arenas a catedrais, e os jogadores a artistas renascentistas, criadores de "obras tão lindas que dão fé às pessoas", como se diz no filme. "Meu pai me falava que eu era o novo Michelangelo", conta Diamantino. 

Um Michelangelo narcisista, ao gosto das redes sociais e dos reality shows. Quando enfim adota um filho refugiado, o atleta o ensina a fazer a cara certa para tirar "selfies": "Tens de fazer uma cara profunda, uma cara de peixe". "Mais do que nunca, a vida das celebridades é um show que não para e que pasteuriza assuntos que são muito sérios", diz o diretor. Ele inclui no bolo questões como a adoção, tão propalada por gente como Angelina Jolie, e o endosso de campanhas políticas. Não que o longa também não pasteurize, à sua maneira, esses mesmos assuntos. Vestido com as golas cheias de babados de dom Sebastião, Diamantino é orientado em um filme comercial pró-autonomia portuguesa.

"Tens de sentir que todas as células do corpo estão ávidas por sangue mouro, essa raça pestilenta", lhe sopram no ouvido. "O filme não busca apresentar uma visão rigorosa e nuançada de todas essas questões", responde Schmidt. "Sabemos que a comédia pode perpetuar as injustiças, mas esses mesmos riscos existem nos filmes que se dizem sérios."

Séria e soturna é a visão do Brasil que ambos os diretores, hoje com 34 anos, apresentaram em "A History of Mutual Respect". Lançado em 2010, o curta foi inspirado no caso dos estudantes brasilienses que atearam fogo ao pataxó Galdino Jesus dos Santos em um ponto de ônibus, em 1997.

Na ficção, dois jovens americanos, interpretados pelos próprios cineastas, vão para a selva em busca de experiências genuínas. Ali no mato, disputam poder e os favores sexuais de uma índia brasileira. Aborda, diz o americano, a "hipocrisia de alguns intelectuais e hipsters de esquerda". No lançamento, o curta foi descrito como o embate entre o marquês de Sade e "Walden" –ode à vida na natureza de Henry David Thoreau. Também o definiram como uma fábula pós-colonialista.

O tema da herança colonial é caro ao português Abrantes, que no ano retrasado expôs na Bienal de São Paulo o filme "Uma História do Humor". Mesclando o registro documental e o hollywoodiano, a obra trata de uma indígena mato-grossense que se enamora por um robô.

O mesmo apreço pela colagem de elementos díspares é entornado em "Diamantino". "Somos fascinados pela cultura pop e por seus poderes contraditórios", diz Schmidt. Um dos elementos desse imenso "mashup" ainda não se manifestou a respeito do novo filme da dupla: o verdadeiro Cristiano Ronaldo."Esperamos que ele possa assistir ao filme. E que ache divertido.""Diamantino" encerra a programação do Cine Ceará e compete com outras sete produções ibero-americanas, incluindo três brasileiras.

O paulista Felipe Nepomuceno disputa com "Eduardo Galeano Vagamundo", que parte de uma entrevista com o autor uruguaio. Uma mãe de 26 filhos numa vila de pescadores é o mote do drama "O Barco", do cearense Petrus Cariry. E o documentário "Anjos de Ipanema", de Conceição Senna, revisita a geração de cariocas liberais que, no começo dos anos 1970, movimentaram o píer da praia da zona sul.

28º CINE CEARÁaté sáb. (11), em Fortaleza.

Para a programação completa, acesse cineceara.com

Com informações da Folhapress.

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