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Terror mais visto do país, 'A Freira' reflete mal-estar no Brasil

Com uma fórmula que beira o risível, longa superou 'It', 'Annabelle' e 'Invocação do Mal'

Terror mais visto do país, 'A Freira' reflete mal-estar no Brasil
Notícias ao Minuto Brasil

16:15 - 27/09/18 por GUILHERME GENESTRETI

Cultura CINEMA

GUILHERME GENESTRETI - SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Há uma presença maligna neste lugar", diz um padre, a certa altura do horror "A Freira". Da poltrona do cinema, alguém não se contém: "Cê jura?". Ecoam risadas pela sala daquele multiplex de shopping paulistano, que tem três de suas nove telas preenchidas pelo longa. 

Com uma  fórmula que beira o risível, cheia de sustos previsíveis, diálogos capengas e atuações canastronas, a obra em cartaz se tornou o filme de terror mais visto na história recente do Brasil. Em três semanas, vendeu 4 milhões de ingressos no país e superou "It", "Invocação do Mal 2" e os dois volumes de "Annabelle", que encabeçam a alta do gênero nos últimos cinco anos.

Há muito em comum entre eles. Todos pertencem aos estúdios da Warner, têm produções bem mais baratas do que as de blockbusters tradicionais e, em sua maioria, foram lançados entre agosto e outubro, no marasmo entre o verão americano e o fim do ano. 

À exceção de "It", fazem parte do mesmo universo, que começou com "Invocação do Mal", e se conectam por uma história de possessão diabólica, que pode habitar a boneca de "Annabelle" ou assolar um convento, como em "A Freira".

Autora de teses sobre o cinema de terror, a pesquisadora Laura Cánepa elenca o fato de ele derivar desse mesmo tronco narrativo como um trunfo do filme recém-lançado.

"A franquia é uma tradição que esse gênero de filme sempre soube usar", diz. "Como o monstro é imortal, é natural pensar no que veio antes ou no que veio depois dele." A monja endemoniada, por sinal, já dava as caras em "Invocação do Mal 2", como um aperitivo.

Cánepa também elogia a fórmula encontrada por James Wan, diretor australiano que chamou a atenção com "Jogos Mortais" e escreveu vários dos roteiros desses terrores recordistas de público."Ele acertou a mão nesse estilo montanha russa, de um horror com pé na diversão."

Em "A Freira", Wan criou a história de um padre (Demián Bichir) e uma noviça (Taissa Farmiga) convocados a investigar um suicídio num mosteiro isolado na Romênia, país que de imediato aciona o imaginário de superstições e fenômenos paranormais. 

Ele embute ali o elemento do catolicismo, que Hollywood sempre gostou de encarar com lente exótica, polvilhando seus filmes de terror com exorcistas, madres superioras megeras e cardeais sinistros. Nada estranho, tendo em vista o anticlericalismo que conforma a sociedade americana, protestante em sua origem.

No Brasil, maior nação católica do mundo e prolífica em extrair bilheterias de longas religiosos, "A Freira" encontrou um rebanho suscetível. "O brasileiro tem atração enorme pelo sobrenatural", diz Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B, portal que há 18 anos compila dados sobre o mercado de cinema do país.

Ele pensa que a crise induza o público a ser mais seletivo na hora de gastar o dinheiro do ingresso e escolher obras mais chamativas para ver. 

É curiosa a coincidência entre os humores do Brasil e a alta do horror. "Invocação do Mal", o pioneiro dessa onda, aportou pouco depois dos protestos de junho de 2013, pedra inaugural do mal-estar nacional contemporâneo.

Enquanto a recessão econômica, o impeachment, a polarização política e a ascensão da extrema direita ocupavam o noticiário nos anos que se seguiram, os brasileiros formavam filas para ver o mais novo filme dessa franquia sobre entidades possuídas, remédio perfeito para um país que vomitava seus demônios.

Não é à toa que em 2018, a mostra de filmes mais bem-sucedida do ano no Centro Cultural Banco do Brasil, com taxa de ocupação na casa dos 80%, é a "Monstros no Cinema", em cartaz em São Paulo.

E a missão da noviça de "A Freira", que desce ao calabouço da abadia amaldiçoada para enfrentar um demônio, lembra a jornada de um povo que submerge em seus cantos mais obscuros para tentar sair purgado após as eleições e, talvez, por fim à moléstia que se arrasta há cinco anos.

Com um balde de pipoca no colo, a psicóloga Beatriz Farias, 24, foi das que entraram na sala porque queriam "algo diferente do filme clichê de romance". Sua amiga, Caroline Malagodi, 23, saiu um pouco frustrada. "Mas deu pra levar alguns sustos, pelo menos."

A auxiliar administrativa Natália Cássia, 32, foi à sessão direto do trabalho. "Filme de terror é para ver no cinema. Em casa é meio chocho."

A justificativa tem a ver com outro dos palpites do diretor do Filme B para o sucesso do longa na telona. "É um gênero para ser visto no escuro. O som nele é muito importante." "Quem perde mais com o streaming é o cinema de arte, que pode ser visto em casa sem muita perda", ele diz.

Isso pode explicar por que, ao contrário dos títulos estrangeiros, as obras nacionais de terror ainda não arrastam multidões, como as comédias brasileiras.

Donos de ótimos roteiros e direções, "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra, e "O Animal Cordial", de Gabriela Amaral Almeida, estrearam em circuito bem menor e não somam juntos 20 mil ingressos vendidos. "Talvez o público não identifique o filme brasileiro como entretenimento", diz Cánepa. 

É abissal a diferença entre ver obra de terror autoral em sala de cinema de rua e ir a uma sessão de longa de susto fácil em shopping center.

Reina no segundo caso uma sinfonia de murmúrios em volume que seria impensável ante o silêncio reverencial das salas de filme de arte. As pernas se estiram de forma folgada nas poltronas da frente e se conversa num clima nostálgico de matinê, última fagulha de resistência do cinema contra a voracidade do streaming. 

FILMES DE TERROR CAMPEÕES DE PÚBLICO NO BRASIL

1 - "A Freira" (2018): 4,5 milhões de ingressos

2 - "It: A Coisa" (2017): 4,4 milhões de ingressos

3 - "Annabelle" (2014): 3,7 milhões de ingressos

4 - "Invocação do Mal 2" (2016): 3,6 milhões de ingressos

5 - "Annabelle 2" (2017): 2,9 milhões de ingressos

Fonte: Filme B Box Office

Com informações da Folhapress.

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