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Ritmo de avanço tecnológico está acima da nossa capacidade de avaliação, diz futurista Amy Webb

Neste cenário, em que a pandemia acelerou de maneira acentuada o processo de digitalização, aumentando o poder nas mãos das big techs, a futurista Amy Webb alerta que a velocidade com que a tecnologia tem avançado é superior à nossa capacidade de refletir sobre as implicações desse processo no longo prazo

Ritmo de avanço tecnológico está acima da nossa capacidade de avaliação, diz futurista Amy Webb
Notícias ao Minuto Brasil

13:27 - 20/11/21 por Folhapress

Tech AMY-WEBB

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas últimas semanas, um novo escândalo envolvendo a rede social Facebook passou a estampar as manchetes de grandes jornais ao redor do mundo, após uma ex-diretora da empresa, Frances Haugen, fazer denúncias contra as práticas adotadas pela rede social.

Neste cenário, em que a pandemia acelerou de maneira acentuada o processo de digitalização, aumentando o poder nas mãos das big techs, a futurista Amy Webb alerta que a velocidade com que a tecnologia tem avançado é superior à nossa capacidade de refletir sobre as implicações desse processo no longo prazo.

"Já há tanto dinheiro envolvido nesse momento, que as grandes companhias de tecnologia não querem diminuir o ritmo e ter de se questionar eticamente sobre as escolhas que têm sido feitas", afirmou Amy, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Na recente denúncia contra o Facebook, a ex-funcionária aponta documentos indicando a rede social confusa com os próprios algoritmos e dificultando o combate aos discursos de ódio por meio da plataforma.

Especialista em desenhar possibilidades de cenários futuros para grandes empresas e governos, a fundadora do Future Today Institute diz que a disseminação de notícias falsas pelas mídias sociais é um dos grandes desafios a serem enfrentados pela sociedade na era moderna.

"Notícias falsas sobre políticas são um grande problema. Agora, notícias falsas sobre saúde pública são uma catástrofe. A pandemia global é, em parte, resultado da falta de informação", afirmou a especialista.

Amy disse ainda que ser flexível é uma das principais características necessárias que as empresas precisam ter em mente para conseguir atravessar os diferentes ciclos econômicos de forma bem-sucedida. A centenária empresa de jogos Nintendo foi apontada como um exemplo assim.
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Pergunta - Quais impactos a pandemia trouxe de maneira permanente para o nosso futuro?

Amy Webb - Espero que possamos olhar para tudo o que está acontecendo por conta da pandemia como uma oportunidade para aprender. O Brasil, e também os EUA, estão uma situação ruim porque não planejaram o futuro.

Parte de um bom planejamento passa pela tomada de decisões acertadas, e por uma boa preparação. E muitos de nossos líderes não estão bem preparados para lidar com a incerteza. Em vez disso, eles preferem adotar uma visão bastante inflexível em relação a como pode vir a ser o futuro. Esse pode ser um tipo de previsão perigosa.

Trabalhar de casa nunca tinha sido uma possibilidade para muitas empresas e instituições de ensino. E com a pandemia, conseguimos ver como isso pode ser útil e trazer diversos benefícios. No entanto, também percebemos que muita gente ainda não tem acesso à internet.

A pandemia jogou luz sobre problemas que já existiam, mas que até então não recebiam atenção suficiente que pudesse levar à busca por melhorias. Agora, avançar nessas frentes é ainda mais importante. Não é a situação ideal, mas pelo menos mudanças devem ocorrer. Obras de distopia traçam frequentemente um cenário sombrio sobre o papel da tecnologia em nossas vidas nos próximos anos.

Como a sra. acredita que será essa evolução?

AW - O futuro é necessariamente um episódio de Black Mirror? Não precisa ser. Mas isso significa que precisamos fazer escolhas melhores. E termos algumas conversas difíceis a respeito de quem deveria usar essas novas ferramentas digitais muito poderosas que têm surgido, quem são as pessoas que devem ficar encarregadas sobre elas. E se precisamos tomar medidas em relação a essas tecnologias, para garantir que elas não causem mais problemas.

O problema não é a ciência ou a tecnologia em si, o problema são as pessoas, e como nos utilizamos dessas ferramentas. A questão é que a tecnologia está avançando em uma velocidade acima da nossa capacidade de pensar a respeito de quais podem ser as implicações desse processo, ou de criar regras ou algum tipo de parâmetro.

E já há tanto dinheiro envolvido nesse momento, que as grandes companhias de tecnologia não querem diminuir o ritmo e ter de se questionar eticamente sobre as escolhas que têm sido feitas, sobre o mau uso dessas tecnologias.

A regulação é um caminho necessário?

AW - Não acho que a regulação seja a resposta, porque se você diz para uma companhia que ela não pode fazer determinada atividade, isso não funciona. E vão se passar anos em uma luta em vão, com o problema ficando cada vez pior.

Acredito que a punição também não seja o melhor caminho para fazer com que as companhias de tecnologia mudem seu comportamento. É preciso uma abordagem mais sofisticada.
No entanto, nos EUA, os políticos estão constantemente preocupados em se reeleger. Vocês têm problemas semelhantes no Brasil. Por isso, é preciso encontrar uma forma de separar a política da tecnologia. E está ficando cada vez mais difícil de se conseguir fazer isso.

A disseminação de notícias falsas é um dos grandes desafios de nossa época?

AW - Sim. Importante dizer que notícias falsas sobre políticas são um grande problema. Mas notícias falsas sobre saúde pública são uma catástrofe. A pandemia global, em parte, é resultado da falta de informação.

O que enxergo no horizonte é o desenvolvimento de novas tecnologias como a chamada biologia sintética, em que componentes biológicos, como o DNA e as células, podem ser redesenhados com novos propósitos.

O que quero dizer com isso é que hoje já temos um grande problema com a falta de informação, o que ficou muito claro na pandemia, sendo que o nível em que a ciência se encontra ainda não é assim tão complexo.

Você consegue imaginar como isso irá evoluir nos próximos anos? Teremos a oportunidade de resolver grandes questões relativas ao meio ambiente, à qualidade de vida e longevidade, e o nível médio de conhecimento das pessoas será cada vez menor. Por isso que é preciso lidar com o problema da falta de informação agora, e não postergar para o futuro.

Quais os principais diferenciais competitivos necessários para uma empresa conseguir ter sucesso nas próximas décadas?

AW - Tenho uma palavra para te responder essa pergunta: flexibilidade. As empresas precisam aprender a confrontar suas crenças e se valer de novas fontes de informação. O mundo está em constante transformação, com mudanças que vêm de diferentes setores da economia.

E em períodos de grande volatilidade e incerteza, muitas empresas, e também governos, tendem a querer adotar uma postura mais conservadora, focar naquilo que eles têm controle, e acabam se tornando muito inflexíveis às mudanças.

Para um negócio prosperar, é preciso ter claro qual seu objetivo e quais as metas a serem alcançadas no futuro, mas também ser flexível.

Um exemplo que posso citar nesse sentido é o da Nintendo. Muitas pessoas acham que a empresa foi criada na década de 1980, por conta do sucesso de jogos como Super Mario e Donkey Kong. E a companhia até foi fundada mesmo na década de 80, só que dos anos 1800 [a empresa foi fundada em setembro de 1889]. Ela sempre atuou no setor de jogos, e começou suas atividades fazendo jogos de tabuleiro e de cartões impressos, o que exigia um ecossistema bastante específico para a fabricação dos produtos já naquela época.

Algo que a Nintendo sempre fez muito bem foi estar atenta às novas tendências. É uma companhia especializada em jogos e entretenimento, mas com muita flexibilidade em relação a como fazer isso e aberta a trazer inovações de fora.

Quando as televisões começaram a surgir, a empresa criou o console para ser plugado nos aparelhos. Quando as pessoas passaram a frequentar mais os shoppings, a Nintendo adaptou seus jogos para grandes máquinas e ajudou a criar os fliperamas. Recentemente a empresa lançou um parque temático no Japão baseado em realidade virtual.

Essa é uma empresa que já poderia ter morrido diversas vezes ao longo de sua história, mas que veio sempre acompanhando a evolução do mercado e se mostrou extremamente resiliente. É um bom exemplo para qualquer empresa de como se concentrar no que você faz bem, mas com flexibilidade para saber como fazer isso da melhor maneira possível. E a Nintendo ainda produz até hoje seus cartões impressos em papel, que, por sinal, são bastante caros.
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Raio-X | Amy Webb, 47

Amy Webb nasceu em 18 de outubro de 1974 em Chicago, nos EUA, e é fundadora do Future Today Institute, empresa de tecnologia baseada em análise de dados especializada na projeção de cenários para grandes empresas e organizações intergovernamentais.

Amy foi apontada pela Forbes como "uma das cinco mulheres que estão mudando o mundo", e listada entre as 100 mulheres de 2020 pela BBC. Ela é professora na Stern School of Business, da Universidade de Nova Iorque, onde desenvolveu e ministra um MBA de previsão estratégica.

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