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Sucesso no Palmeiras faz Portugal olhar para Abel com admiração inédita

Abel Ferreira também vem ganhando cada vez mais popularidade em Portugal

Sucesso no Palmeiras faz Portugal olhar para Abel com admiração inédita
Notícias ao Minuto Brasil

13:40 - 02/02/21 por Folhapress

Esporte Técnico

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - Nas últimas semanas, com o agravamento da pandemia, tornou-se comum ver na TV ambulâncias enfileiradas na porta de hospitais em Portugal. Uma imagem do último sábado (30), no entanto, destoava nos telejornais.

Não era apenas a aglomeração em um boteco no Rio de Janeiro que chamava a atenção. Nem mesmo a ausência quase completa de máscaras. Ou ainda a abundância de camisas verdes para onde quer que se olhasse.

Esses detalhes ficaram todos em segundo plano quando uma pessoa invadiu a entrada ao vivo de um correspondente da RTP, canal estatal do país, para proclamar. "Acabou. A América é nossa. É do Palmeiras", gritou mais de uma vez.

O clima festivo era destaque também na emissora local de maior audiência, a CMTV, que transmitia ao vivo a comemoração pela Libertadores na Pompeia, tradicional reduto alviverde na zona oeste de São Paulo.

Não havia como driblar o impacto do que acontecia no Brasil. Assim que acabou o jogo entre Portimonense e Boavista, naquela mesma noite, pela Liga Portuguesa, os técnicos de ambos clubes foram perguntados a respeito da vitória de 1 a 0 do Palmeiras sobre o Santos.

O responsável por romper com a monotonia do noticiário atual era somente um: Abel Ferreira, que recebeu ligação até do presidente do país, Marcelo Rebelo de Sousa.

Ao conduzir o Palmeiras à conquista de sua segunda Libertadores, o português de 42 anos viu o seu nome ressoar do outro lado do oceano como nunca antes em sua carreira. Foi preciso partir para o Brasil para que as suas virtudes e os seus defeitos fossem dissecados ao pormenor, com a cobertura ampla de todas as partidas alviverdes por seus compatriotas.

Nem quando levou o Braga, quarta força do país, à melhor pontuação de sua história, ele gerou tanto interesse.

"O espaço em Portugal é muito concentrado nos três grandes", afirma João Aroso, que era assistente do Sporting quando Abel jogava como lateral direito, esteve ao seu lado no Braga e agora é comentarista na Sport TV.

"Ele conseguiu desbloquear um pouco isso, embora a diferença em relação ao Jorge Jesus na temporada anterior tenha sido grande. É claro que isso passa pelo estatuto maior que o Jesus carregava ao assinar com o Flamengo. Já havia sido campeão com o Benfica e passado pelo Sporting enquanto o Abel não tinha e ainda não tem o mesmo prestígio", completa.

A exemplo do que acontece no Brasil, as comparações entre os dois treinadores acabam sendo recorrentes.

"O Jesus é mais midiático, oferece outro tipo de apelo para a imprensa, uma mensagem diferente. O Abel tem uma mensagem mais técnica, possui outra personalidade e também caráter. Ele merecia ter mais visibilidade", diz António Carraça, que trabalha no Canal 11.

É consenso, ainda assim, que isso é uma questão de tempo.

O professor de educação física que abandonou Penafiel, sua cidade natal, para ganhar o mundo tem na Libertadores um ponto de virada em sua carreira. Ele deixa o torneio sul-americano muito maior do que quando assumiu o Palmeiras, em novembro, nas oitavas de final.

A conquista de seu primeiro título profissional é a cereja no bolo de um percurso pensado desde o seu princípio ao mínimo detalhe e que, como define uma pessoa próxima, o coloca a partir de agora numa outra prateleira.

Com contrato até o fim de 2022 no Palmeiras, Abel já recusou oferta do Al Rayyan, do Qatar, e pretende cumprir o seu vínculo de forma integral.

"Esse título naturalmente vai ter proporções gigantescas em sua caminhada e acredito que abra outras possibilidades, inclusive, no mercado europeu. Não só pelo que conseguiu, mas por todo o trabalho que tem desenvolvido, pela maneira como se exprime e como tem o grupo sempre com ele", analisa Carlos Saleiro, que foi seu colega no Sporting e hoje atua como agente.

A despeito de seu peso mais reduzido no velho continente, a Libertadores permite a Abel, enfim, extrapolar as fronteiras de Portugal e passar a ser discutido em ligas maiores.

"São façanhas como essa que marcam e transformam a carreira de treinadores. Um treinador pode ter a competência que for e trabalhar muito bem, mas, se não conseguir atingir os objetivos propostos, logicamente não pode aspirar a um nível mais elevado", avalia Carraça, que foi diretor em diversas equipes, entre elas o Benfica. "O Abel, com essa taça, vem ao encontro disso."

Um dos fatores citados como possível dissuasor para abreviar a sua passagem pelo Brasil é a distância da família, potencializada com a pandemia. Logo que deixou o gramado do Maracanã, no fim de semana, o palmeirense ligou, aos prantos, para o pai, Sebastião.

Suas falas na entrevista coletiva também foram fortes: "É verdade que hoje sou melhor treinador, mas sou o pior pai, o pior filho, o pior irmão. Deixei minha família de lado. Vocês não sabem a quantidade de vezes que chorei sozinho no travesseiro".
Como atleta, ele sempre teve a companhia da esposa, que abdicou de sua formação em direito, para acompanhá-lo por todo lado e a quem prometeu, ao se aposentar, que cederia também "para dar um pouquinho de volta".

Nada disso, claro, será colocado na mesa com o Mundial de Clubes em seu plano imediato. Para encarar um possível desafio contra o Bayern, Abel seguirá com o mantra que viralizou recentemente e repete desde sempre: cabeça fria e coração quente.

"Ele tem um discurso forte, em que conversa bastante e usa muito essa expressão. Vi no Palmeiras, mas havia escutado antes também no Braga. E a verdade é que ele é um pouco isso, fala com a razão e age, quando o momento exige, com a emoção", conclui Aroso.

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