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Kremlin diz que manifestações pró-Navalni não irão 'balançar o barco' de Putin

No sábado (23), dezenas de milhares de russos foram às ruas em cerca de 100 cidades para pedir a libertação de Navalni, preso no domingo passado (17) ao voltar da Alemanha para a Rússia

Kremlin diz que manifestações pró-Navalni não irão 'balançar o barco' de Putin
Notícias ao Minuto Brasil

14:00 - 24/01/21 por Folhapress

Mundo RÚSSIA-GOVERNO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dia depois de um protesto maciço em toda a Rússia contra a prisão do ativista Alexei Navalni, o Kremlin minimizou neste domingo (24) os atos e disse que eles não iriam "balançar o barco" do presidente Vladimir Putin.


As palavras foram do porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, numa entrevista no canal estatal de TV Rússia-1. Ao mesmo tempo, ele fez um gesto de reconhecimento aos manifestantes, dizendo que "eles também são cidadãos russos".


"Eu respeito todos os pontos de vista, mas sou fortemente contrário à participação em qualquer ato não autorizado", disse, em referência à violenta repressão aos atos que levou mais de 3.100 pessoas à cadeia.


Peskov falava em um programa chapa-branca, adequadamente chamado "Moscou. Kremlin. Putin", e pode ser ouvido como a voz do chefe.


No sábado (23), dezenas de milhares de russos foram às ruas em cerca de 100 cidades para pedir a libertação de Navalni, preso no domingo passado (17) ao voltar da Alemanha para a Rússia.


Ele estava em Berlim após ser tratado de um envenenamento que os médicos atribuíram ao agente neurotóxico Novitchok (novato, em russo), criado na antiga União Soviética e usado até hoje pelos serviços de segurança do país.


Navalni, que divulgou uma gravação com um espião que admitiu o uso do veneno, acusa Putin pela tentativa de homicídio. O Kremlin nega a acusação.


"Não muitas pessoas dirão que um monte de gente foi às marchas ilegais [do sábado]. Não, foram poucos. Muita gente vota em Putin", lembrou Peskov, citando os 78% que aprovaram em referendo no ano passado uma mudança constitucional que abre caminho para o presidente tentar ficar no poder até 2036.


Noves fora as suspeitas usuais de fraudes, Peskov se sustenta numa realidade apontada por cientistas políticos. Em 21 anos de poder de Putin, foi promovida uma fossilização das estruturas políticas com verniz democrático.


Assim, o eleitor sabe que, no esquema das coisas, partidos de oposição participam de eleições, mas no fundo não têm condições institucionais para governar na hipótese de vitória. Essa corrosão da mobilidade por meio do voto leva a um conformismo, mas só até certo ponto.


Isso se viu no sábado. Navalni não é uma figura de oposição popular. Tem 2% de intenção para voto a presidente, como apontou pesquisa independente do Centro Levada em novembro. Mas ele simbolizou neste momento o fastio a sociedade com as regras do jogo.


Isso já aconteceu outras vezes. Nas jornadas de 2012, contra a nova eleição de Putin, a classe média fomentada pelo presidente mostrou irritação e pediu mais do governo. Em 2017, foi a vez de jovens mobilizados pela internet, gente que cresceu sem ver outro líder além de Putin.


Esse grupo foi galvanizado por Navalni e faz barulho, ainda que isso não se reverta na crença de que ele possa ser um presidente, por exemplo.


O ativista percebeu isso e passou a apostar numa outra tática: estimular quaisquer candidaturas, em nível local ou regional, que pudessem derrotar o Rússia Unida, o partido do poder.


Deu certo pontualmente em pleitos em 2019 e 2020, e agora o plano é fazer o mesmo na mais importante eleição parlamentar de setembro.


Peskov pode minimizar tudo isso, mas a atitude das autoridades ante a volta de Navalni, que saiu em coma do país e foi acusado de violar sua liberdade condicional referente a uma sentença que disse ser fraudulenta em 2014, sugere algo diferente.


O ativista teve seu avião desviado de aeroporto de chegada, foi detido e no dia 2 enfrenta uma audiência que pode lhe dar três anos e meio de cadeia. Ele já havia sido impedido de concorrer contra Putin por uma minúcia judicial em 2018.


Ainda assim, a referência de Peskov ao fato óbvio de que os manifestantes são cidadãos de seu país mostra talvez um ensaio de abertura. Em 2012, isso ocorreu na forma da volta de eleições diretas para governadores, por exemplo.


No mais, o Kremlin voltou a acusar o Ocidente de tentar interferir no país. Enquanto a intenção no geral existe, o caso citado pelo Ministério das Relações Exteriores não se sustenta: a pasta diz que os EUA tentaram fomentar os atos de sábado só por terem publicado no site da embaixada um aviso dos locais de manifestação.


Na realidade, a embaixada queria alertar cidadãos norte-americanos a evitar tais pontos, uma prática usual em todo o serviço diplomático do mundo. "É claro que essas publicações são inapropriadas", disse Peskov. Representantes americanos foram chamados a explicar a situação.


Ao mesmo tempo, afirmou que o governo Putin está disposto a dialogar com a nova gestão de Joe Biden na Casa Branca. "Haverá um diálogo onde, é claro, as diferenças têm de ser explicitadas. Mas é possível encontrar núcleos racionais em que nossa relação se aproxime", disse.


O americano deu já o primeiro passo, aceitando a proposta russa de extensão de um acordo de limitação de armas nucleares, ainda que pedindo uma investigação sobre o caso Navalni.

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