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'Quase morri em um aborto no Brasil', diz argentina

Tinha três filhas pequenas, a mais nova com pouco mais de um ano.

'Quase morri em um aborto no Brasil', diz argentina
Notícias ao Minuto Brasil

19:13 - 07/08/18 por Folhapress

Mundo Barrancos

A argentina Dora Barrancos, 77, quase morreu ao praticar um aborto clandestino no Brasil na década de 1970. Ela havia acabado de chegar a Belo Horizonte, onde viveu exilada com o marido por oito anos durante a última ditadura militar em seu país (1976-1983).

Tinha três filhas pequenas, a mais nova com pouco mais de um ano. "Não tinha nenhuma condição de ter mais um filho naquelas circunstâncias", afirma.

Quando chegou à clínica onde seria feito o procedimento, encontrou um ambiente tão precário que achou que estava no lugar errado.

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"Na época, as mulheres de classe média iam para São Paulo ou Rio de Janeiro para abortar. As condições em Belo Horizonte eram dramáticas. Fizeram sem anestesia. E um tempo depois tive uma hemorragia brutal", lembra.

Hoje, Dora, que é socióloga e historiadora feminista, tornou-se ativista pró-descriminalização do aborto na Argentina. Ela foi uma das profissionais a expor, em uma audiência pública, argumentos em defesa do projeto de lei que legaliza a interrupção voluntária da gravidez até a 14ª semana. Aprovado na Câmara, o projeto passa por votação no Senado nesta quarta-feira (8).

Dora já havia sofrido um aborto em seu país, em 1977. Lá foi diferente, conta. "Tínhamos uma rede, sabíamos quais eram os lugares bons e os ruins para isso. Não aconteceu nada."

No Brasil, seu marido, que é médico, havia tido a experiência de acompanhar o caso de uma paciente que morreu por complicações de um aborto clandestino em Mariana (MG).

"Ela chegou ao hospital gritando, devaneando. Morreu pouco depois. As mulheres pobres passam por esse tipo de procedimento em condições absolutamente deploráveis. Foi uma experiência muito marcante para ele."

E foi ele que levou sua mulher imediatamente ao hospital quando ela começou a ter sangramento após sair da clínica em Belo Horizonte. Diferentemente de outras pacientes, que recebem ameaças de serem denunciadas quando buscam ajuda, ela foi bem atendida. "Foi o que me salvou", diz.

Ela não se arrepende de ter se submetido ao procedimento. "Não é uma página que alguém vire com facilidade, mas estou longe de me vitimizar. Vivi essa experiência, não me arrependo. Estava claríssimo que eu não poderia ser mãe naquelas circunstâncias."

A argentina conta que se tornou feminista no Brasil, após o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo companheiro com quatro tiros na cabeça, em 1976.

"Vi uma entrevista do advogado do marido dela dizendo que a estratégia da defesa ia ser 'muito simples': legítima defesa da honra. Aquilo para mim foi uma comoção, não só o que ele disse, mas a forma como ele disse", lembra.

Ela vê uma grande diferença entre a luta pela descriminalização do aborto na Argentina e no Brasil: a dimensão massiva do movimento por lá.

"Essa quantidade de mulheres indo às ruas e se colocando no debate é algo que ainda não se vê no Brasil. Mas, de qualquer forma, por aqui isso é inédito também. Acredito que essa maré pode contagiar o Brasil e outros países vizinhos."

Dora decidiu falar publicamente sobre seus abortos no fim da década de 1990. Para ela, ter passado por isso a aproxima de outras mulheres que vivem a mesma situação e traz empatia à sua defesa dos direitos reprodutivos.

"Sei do que se trata, sei como é, sei da densidade dessa decisão. Isso me torna intimamente ligada a cada mulher que passa por isso."

Com informações da Folhapress.

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