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Série 'Cursed' dá impressão de roteiro escrito por algoritmo

A série estreou na última sexta-feira (17).

Série 'Cursed' dá impressão de roteiro escrito por algoritmo
Notícias ao Minuto Brasil

08:50 - 20/07/20 por Folhapress

Cultura SÉRIE-CURSED

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Se existe uma lição a se tirar da narrativa pasteurizada da série de fantasia "Cursed", que estreou no final semana na Netflix, é que talvez esteja na hora de deixar as histórias do rei Arthur descansando num cantinho antes de tentar dar a elas "uma roupagem atual" pela enésima vez.

Mexer nesse vespeiro de séculos de imaginação não é para qualquer um -e certamente não parece ser a praia de Tom Wheeler e Frank Miller, os criadores do seriado.

Nos cinco episódios (de um total de dez da primeira temporada) disponibilizados de antemão para a imprensa, há praticamente de tudo: um povo "das fadas" com poderes mágicos derivados da natureza, monges-guerreiros trajados de escarlate que adoram assar os membros desse povo em cruzes, cavaleiros vis e nobres, ataques de vikings, o papa (não sabemos exatamente qual) no ofurô e um Merlin pinguço e privado de sua magia (aliás, por falar em vikings, o célebre mago é interpretado por um velho conhecido da série "Vikings", Gustaf Skarsgard, ou Flóki). Ufa.

O problema nem é exatamente a mistureba de referências e períodos históricos, que vão do imperador cristão Carlos Magno (748-814 d.C.) à guerreira bretã Boudicca (que viveu uns 800 anos antes de Carlos Magno), com pitadas da Idade do Bronze e do Renascimento. Ninguém parece saber exatamente em qual lugar ou época a história se passa, e ninguém parece se importar com a imprecisão.

Nesse ponto, até que o trabalho da série lembra o que aconteceu com o ciclo arturiano ao longo da Idade Média. Com o passar dos séculos, a saga foi adquirindo aspecto de bola de neve, incorporando os mais diferentes elementos, das fontes mais disparatadas, até transformar o reinado de Arthur numa espécie de Terra do Nunca, para a qual convergiam todos os aspectos do imaginário medieval.

De novo, porém, é preciso engenho e arte para que esse ato de alquimia não acabe chamuscando o nariz de quem está criando a história. Wheeler e Miller (o segundo mais conhecido pelo seu trabalho nos quadrinhos, com personagens como Batman e as séries "300" e "Sin City") tentam fazer isso ao transformar em protagonista a donzela Nimue (Katherine Langford), originalmente uma personagem secundária das histórias arturianas.

Na nova versão da série, ela se torna a guardiã da Espada do Poder (decerto uma referência à lendária Excalibur) e, ao que tudo indica, será o bastião contra o fanatismo dos Paladinos Vermelhos, os monges que querem exterminar o "povo das fadas".

Os temas do protagonismo feminino e do confronto entre a antiga fé pagã e um cristianismo supostamente fanático tampouco são novidade nas releituras da saga arturiana -a escritora americana Marion Zimmer Bradley (1930-1999) já havia adotado essa perspectiva em "As Brumas de Avalon", com considerável competência.

Na nova produção, porém, quando colocados no caldeirão junto com os demais elementos, fica difícil evitar a impressão de roteiro escrito por algoritmo ("Detectamos aqui que o pessoal entre 20 e 30 anos de idade adora vikings, vamos colocar uns vikings na história também?").

Nimue e seu possível par, Arthur (Devon Terrell), são carismáticos, e em alguns pontos a narrativa é capaz de arrastar adiante quem está assistindo, mas raramente é o suficiente.

CURSED - A LENDA DO LAGOAvaliação: regularOnde: Netflix

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