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Novo 'Queer as Folk' honra as origens, mas exagera na diversidade

A primeira versão surgiu em 1999 na TV britânica, e terminou um ano depois

Novo 'Queer as Folk' honra as origens, mas exagera na diversidade
Notícias ao Minuto Brasil

22:30 - 03/08/22 por Folhapress

Cultura Série

FOLHAPRESS - "There's nowt so queer as folk", diz um ditado do norte da Inglaterra. Em português, quer dizer que nada é mais estranho do que as pessoas. Mas a palavra "queer" em inglês também serve como um guarda-chuva para todas as sexualidades que escapam da heteronormatividade. Por isso, o roteirista Russell Davies achou que "Queer as Folk" seria um bom nome para sua série sobre um grupo de amigos gays.

A primeira versão surgiu em 1999 na TV britânica, e terminou já no ano seguinte. Foram só duas temporadas, com dez episódios ao todo. Mas o impacto da série ultrapassou sua curta duração.
Até então, era raro que personagens homossexuais protagonizassem programas voltados ao público em geral. "Queer as Folk" também foi elogiada pela honestidade com que retratou a cena gay da cidade de Manchester, mostrando sem pudores o sexo sem compromisso e o consumo de drogas recreativas.

O impacto foi tão grande que, já em 2000, era lançada uma versão americana. Os personagens centrais, embora com novos nomes, eram basicamente os mesmos -Brian, um gay "alfa", promíscuo e bem-sucedido; Michael, seu melhor amigo, há décadas apaixonado por Brian; e Justin, um adolescente com quem o "alfa" se envolve. Como coadjuvantes, Melanie e Lindsey, um casal de lésbicas mães de um bebê que é filho biológico de Brian.

Ambientada em Pittsburgh, a "Queer as Folk" americana teve seis temporadas. No Brasil, foi exibida entre 2001 e 2006 pela HBO como "Os Assumidos", um título que soa cringe para os ouvidos modernos.

As duas primeiras iterações do seriado discutiam uma grande questão entre os gays de duas décadas atrás –qual seria o melhor estilo de vida? Emular o casamento heterossexual, com fidelidade mútua e responsabilidades conjugais, ou se manter livre, leve e solto, sem amarras com ninguém?

Mesmo com boa repercussão, ambas foram criticadas por passar meio que ao largo da Aids, que na época era um problema muito maior do que é hoje. Atualmente, as duas são malhadas pela pouca diversidade. Todos os personagens centrais são brancos e cisgêneros. Alguns eram até interpretados por atores heterossexuais -horror dos horrores.

A terceira versão de "Queer as Folk" chegou para consertar esse viés. Lançada em junho nos Estados Unidos, chegou ao Brasil no último domingo pela plataforma Starzplay. Dois dos oito episódios da primeira temporada já estão disponíveis.

Para quem acompanhou as versões anteriores, identificar quem é quem em suas novas encarnações é divertido e frustrante ao mesmo tempo. O cenário agora é Nova Orleans, palco de um choque cultural entre o hedonismo desenfreado e o conservadorismo típico do sul dos Estados Unidos.

Brian agora é Brodie, vivido por Devin Way. Birracial e autocentrado, ele larga a faculdade de medicina em Baltimore e volta à cidade natal para se reconectar com a família, os amigos e, quem sabe, o ex-namorado Noah, de origem latina. O papel, que substitui o antigo Michael, coube a Johnny Sibilly, da série "Hacks" da HBO Max.

O casal de lésbicas ganhou mais proeminência. Agora é formado por Ruthie, uma mulher trans, feita pela atriz trans Jesse James Keitel, e Shar, que é negra e não binária, interpretada por CG.

Não binário também é Mingus, vivido por Fin Argus, o adolescente que sonha em se tornar drag queen e vai abalar as estruturas de Brodie.

No episódio de estreia, todos se cruzam na boate Babylon, que manteve o mesmo nome das outras versões. Mas a noite é interrompida por um atirador que faz vários mortos e feridos, como no atentado à boate Pulse, em Orlando, em 2016.

Os nomes mais conhecidos do elenco estão em papéis secundários. Kim Cattrall, a Samantha de "Sex and the City", faz a mãe de Brodie, e Ed Begley Junior, o pai. Juliette Lewis é a mãe de Mingus. Ryan O'Connell, da série "Special" da Netflix, é o irmão com paralisia cerebral de Brodie, além de roteirista e coprodutor-executivo.

De modo geral, o novo "Queer as Folk" honra as origens, trazendo a série para a atualidade sem desfigurar as coisas. Tem bons diálogos, boa edição e bons atores, além de cenas de sexo e drogas muito mais ousadas que as das versões antigas.

Mas também corre o risco de cair no mesmo erro que prejudicou "And Just Like That", a continuação de "Sex and the City", ao pesar a mão na diversidade. Não há um único branco cisgênero sem deficiência entre os papéis principais. Nada contra, mas o resultado precisa ser orgânico. Por enquanto está sendo.

QUEER AS FOLK

Quando Dois novos episódios todo domingo
Onde Disponível no Starzplay
Classificação 16 anos
Elenco Devin Way, Fin Argus e Johnny Sibilly
Produção EUA, 2022
Criação Stephen Dunn
Avaliação Muito bom

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