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Iraniano cria app de entrega de comida caseira para vizinhos no Brasil

Refugiado iraniano cria app de entrega de comida caseira para vizinhos no Brasil

Iraniano cria app de entrega de comida caseira para vizinhos no Brasil
Notícias ao Minuto Brasil

13:22 - 10/06/20 por Folhapress

Tech BRASIL-REFUGIADOS

VIÇOSA, MG (FOLHAPRESS) - Neste momento de alta demanda por delivery de comida devido ao isolamento da pandemia, um refugiado iraniano aposta em um aplicativo idealizado com base em sua própria experiência vendendo pratos de seu país no Brasil.

Engenheiro e chef, Amir Nasiri, 36, criou, junto com um sócio brasileiro, o Foozi, uma plataforma que conecta cozinheiros autônomos a seus vizinhos para a entrega de refeições caseiras. Diferentemente de outros apps do tipo, não há cobrança de taxa de entrega, já que a área de cobertura se restringe a um raio de 600 metros: a proposta é que a própria pessoa que vende os pratos possa levá-los a pé para os clientes na vizinhança.

A ideia começou a ser colocada em prática em 2017, quando Amir saiu do emprego em um restaurante onde trabalhava em Belo Horizonte. Ele começou a cozinhar pratos persas para os vizinhos de seu prédio e fez um teste de entregas junto com Marcos Zambalde, brasileiro que havia sido apresentado a ele pela síndica do edifício. Em uma semana, conseguiram dez clientes fixos por dia e decidiram tentar viabilizar aplicativo.

"Vi que existem muito apps para motoristas e restaurantes, mas nenhum para o cozinheiro, a pessoa física", diz Amir. "Nosso cadastro é com o CPF, e não com CNPJ. No Brasil já existe bastante esse trabalho de vender marmita, quentinha, caldo, bolo caseiro, só que sem organização. A gente quer organizar isso", diz ele.

Membro de uma família com tradição na oposição ao regime iraniano e com familiares refugiados em outros países há anos, Amir veio ao Brasil pela primeira vez em 2008. Voltou para seu país no ano seguinte, quando não corria mais tantos riscos, e montou um grupo de empresas, entre elas uma agência de turismo e um restaurante.

Ele conta que nessa época se converteu ao cristianismo e começou a organizar reuniões religiosas e políticas clandestinas. Após ser delatado para o regime, saiu da cidade de Shiraz, onde vivia, e passou um tempo em Teerã. Um dia, em 2013, recebeu uma notificação de que deveria comparecer à Justiça. "Eu sei como funciona isso lá. Você entra no lugar e só Deus sabe quando vai sair", conta. "No Irã, quando você sofre perseguição política e religiosa, a solução é prisão ou fugir. Não tem outro caminho."

Amir sacou todo o dinheiro que tinha e, junto com a esposa e a cachorrinha do casal, enfrentou quase 40 horas de viagem até a Armênia. Passou um ano lá, achando que poderia novamente voltar para o Irã e retomar seu negócio. Desde então, não conseguiu retornar a seu país.

O casal então conseguiu um visto para o Brasil e, em 2014, veio via Turquia para cá, em uma longa jornada em que "cada minuto tem uma história", conta. Eles moraram por oito meses em Vitória da Conquista (BA). Dormiram nos fundos do restaurante onde ele trabalhou por quase cinco meses, um período difícil, lembra. "Eu tinha outra vida no Irã. Não vou falar que estava rico, mas tinha uma base, três apartamentos, uma empresa com vários funcionários. Cheguei aqui sem nada", conta.

A dificuldade com o português não ajudava. "Eu trabalhava como barman e o pessoal era bacana comigo, conversava, mas eu não entendia nada. O dinheiro estava acabando, lembro que uma noite eu chorei, pensando que talvez tivesse escolhido o país errado", relata.

Decidiu, então, mudar de cidade. Em Belo Horizonte, demorou semanas para conseguir alugar um apartamento, por não ter fiador -um problema muito comum enfrentado por imigrantes no Brasil. Quando já queria desistir, ligou para uma última imobiliária. "Pensei: 'Jesus, perdi tudo na minha vida, me ajuda'. Liguei e já fui avisando: 'Sou Amir, sou refugiado e não tenho fiador. Tem algum apartamento para mim?' Disseram que tinha."

O imóvel estava em péssimas condições, lembra. "Tinha móveis velhos, quebrados. Mas para mim parecia um paraíso. Aí começou de verdade minha vida no Brasil."

A mudança na sorte veio também de um encontro que aconteceu ali: com a síndica do prédio, que conhecia o Irã e virou primeiro sua amiga e, depois, sua "mãe brasileira". Professora de português, ela começou a dar aulas do idioma para o casal."As aulas deveriam durar das 21h às 23h, mas iam até de madrugada. Ela nos apresentou o Brasil: a cultura, a música, a política. Foi um milagre para mim", diz Amir.

Foi ela também que lhe apresentou para o organizador de uma feira gastronômica, onde Amir fez dois dos mais de 30 tipos de churrasco persa existentes e viu filas se formarem em frente à sua barraca.

O iraniano foi chamado para trabalhar em um restaurante, do qual virou subchef três meses depois. Em mais alguns meses, decidiu sair. "Eu sou empreendedor. Como funcionário, não podia mudar as coisas, colocar minhas ideias. Pedi as contas. Minha mãe brasileira falou: você louco, vai abrir mão de um salário bom, de plano de saúde", lembra.

Foi aí que ele conheceu o sócio e lançou o Foozi, há três anos. Desde então, foram muitos altos e baixos. No começo, eles iam caminhando até as reuniões com investidores para economizar. "Um dia andamos 27 km para não pegar ônibus. Começamos realmente do zero. O que minha esposa ganhava não dava nem para o aluguel", diz Amir.

No segundo semestre de 2018, tinham 2.000 cadastros de cozinheiros. Agora, são 3.000, dos quais 500 finalizaram o processo, que inclui completar um curso online de boas práticas e segurança de alimentos do Sebrae. Cerca de 2.000 consumidores, por sua vez, baixaram o app.

Em 2019, a dupla foi para São Paulo, onde foram selecionados para participar de uma mentoria do Google para startups durante três meses em 2020. Em abril, Amir abriu um restaurante de kebab persa na avenida Paulista, onde ele próprio cozinha. Por causa da quarentena, passou a trabalhar com entregas.

Amir cozinha desde criança, ensinado pela mãe -hábito que não é comum para um homem em sua cultura, conta ele. "Sempre foi um amor para mim", repete várias vezes na entrevista. No restaurante que tinha em seu país natal, gostava de apresentar pratos antigos, que estavam se perdendo. Diz ter viajado por 12 países para se aperfeiçoar.

"Há 5.000 anos, só existiam três culinárias no mundo: a romana, a chinesa e a persa. E para chegarem ingredientes de Roma para a China, tinham que passar pela Pérsia. A gente pegou um pouquinho de cada um", afirma. "Infelizmente poucas pessoas conhecem a comida persa no mundo hoje. Quero apresentar isso para os brasileiros."

Ao cozinhar aqui, teve que adaptar alguns ingredientes que não são facilmente encontrados no país. Em um prato tradicional, pato ao molho de romã e nozes, por exemplo, ele substitui a romã por jabuticaba.

A pandemia interrompeu as ações de marketing para lançamento do Foozi em São Paulo. Mas ele acredita que também abriu uma oportunidade. "Muitas pessoas estão desempregadas agora e cozinhar em casa algo para vender é uma opção acessível, pois não tem o custo de montar um restaurante", diz.

Os sócios suspenderam, neste período, a taxa de 10% cobrada dos cozinheiros por cada venda. Eles também enviam informações sobre como manipular a comida e as embalagens para evitar contágio pelo coronavírus.

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