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'Estão querendo emburrecer a arte', diz Renato Borghi

Na nova montagem, que estreia no sábado (16), ele divide a direção e o palco com Élcio Nogueira e Georgette Fadel, num cenário de Daniela Thomas

'Estão querendo emburrecer a arte', diz Renato Borghi
Notícias ao Minuto Brasil

22:00 - 15/11/19 por Folhapress

Cultura RENATO-BORGHI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Renato Borghi, 82, se vê acuado hoje como em 1973, quando estreou "O que Mantém um Homem Vivo?", com textos de Bertolt Brecht. O presidente era o general Emílio Médici, o mais opressor na ditadura militar. E agora "já é fascismo, disfarçado de democracia", diz o ator.

"Esse olho deles em cima da gente vem vindo cada vez mais. E mostrando mais inteligência, que a censura não tinha. Eu acho a coisa agora mais tenebrosa, mais planejada."

Na nova montagem, que estreia no sábado (16), ele divide a direção e o palco com Élcio Nogueira e Georgette Fadel, num cenário de Daniela Thomas. Borghi falou na plateia do Teatro Anchieta, na última quarta, no fim do ensaio.

PERGUNTA: De 1973 para cá, ficou tudo tão próximo assim?

RENATO BORGHI: Era Médici, uma hora de tortura, de censura em cima da gente. E estamos num momento muito violento, mascarado de democracia. Um momento em que nós, artistas, estamos sob uma vigilância mais inteligente do que no tempo da ditadura. Agora eles têm informantes, especializados em dizer quem tem viés político etc. Porra, isso é um terror. O que eu penso, o que eu faço, quem somos nós.

P: Na ditadura, as pessoas confundiam Brecht com qualquer outro autor. Hoje...

RB: O próprio já declarou que o Brecht é um perigo.

P: Quem? Ele.RB: O Alvim? Uhum.

P: Você não gosta nem de falar o nome?RB: Não. E declarou que Zé Celso foi responsável pelo pior teatro que já se fez no Brasil. Eu, para falar a verdade, não sei qual futuro teremos. Se isso perdura, não sei o que vai acontecer. As peças são retiradas de cartaz depois de produzidas. Isso me lembra o que aconteceu com "Calabar", em 1974. Depois que a Fernanda [Montenegro] produziu o espetáculo inteiro, no ensaio geral, eles proibiram. Não sei se a gente tem muito futuro.P: Roberto Alvim ganhou o cargo [de secretário de Cultura] depois de uma ofensa a Fernanda, que escreveu uma mensagem para o programa da peça: "O que mantém o teatro livre é o homem livre. O que mantém o homem livre é o teatro livre".

RB: Sim, sim. O Alvim, eu não o reconheço. Ele não é o Alvim que conheci, que foi casado com a minha sobrinha, que ficou na minha casa, que fez "O Jardim das Cerejeiras" comigo. Não é aquele jovem cheio de encanto pela descoberta. Ele me parecia outra pessoa. Eu não reconheço essa pessoa que está aí. O que ele quer? Poder, dinheiro?

P: Pensa em morar fora?

RB: Eu penso muito. Vender minha casa e ir embora. Mas por enquanto estou aqui, na briga.

P: Você não foi embora em 1973.

RB: É, mas eu tinha 30 e poucos anos, filho pequeno, noutra base. E hoje tem, por exemplo, esse olho mau, que não preza a educação, não preza a ciência, corta as bolsas. Parte para uma coisa de trevas, Idade Média, para uma coisa religiosa, estranha. A peça trata disso.

P: Tem 'Galileu'?

RB: Tem duas cenas. Aquela em que ele descobre que a Terra gira. E depois a cena em que ele quer mostrar e ninguém aceita olhar no telescópio.

P: Soam atuais.

RB: É impressionante. Escolhi remontar porque realmente senti que isso está acontecendo. Quando vi o que estavam fazendo com a pesquisa, a arte, o pensamento, eu falei: "Vou fazer de novo".

P: Brecht, de novo.

RB: É uma peça contra o fascismo. Todos os momentos do Brecht, aí, são contra o fascismo. Eu vivi mais de 20 anos disso. Eu sei o que aconteceu com a gente dentro do Oficina, enfrentando, enfrentando, enfrentando, até uma hora em que nós enlouquecemos. Sei o que é estar na mira do CCC [Comando de Caça aos Comunistas], na mira do Exército, na mira do Dops, do Doi-Codi, eu sei o que é isso. A gente está entrando num momento tão perigoso quanto. Em que você não chama mais as coisas pelo nome. Elas vão ficando com uma cara de que tudo isso é normal, mas é profundamente anormal.

P: Aos 82, você não desanima?

RB: Eu estou num momento muito difícil, para dizer a verdade, eu tenho estado em depressão. Para valer. Estou trabalhando com muita dificuldade, porque realmente a minha vontade é ficar quieto, mas ao mesmo tempo eu sei que não posso. Não depois que você vive 61, 62 anos de uma profissão e de repente vê que ela está ameaçada de extermínio. Ou de emburrecimento, porque o que estão querendo é emburrecer a arte. Caetano, Chico, estão querendo calar todas as pessoas que têm uma voz, para impor aquilo que não discute nada, não faz pensar, não leva a transformar. O QUE MANTÉM UM HOMEM VIVO?Quando: Qui. a sáb., às 21h; dom., às 18h. Até 15/12Onde: Teatro Anchieta, Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, tel. (11) 3234-3000Preço: R$ 40Classificação: 14 anos

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