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Bienal de Istambul mira a catástrofe climática e esquece da política

O furor capitalista que vem transformando a metrópole turca num imenso canteiro de obras, entre elas uma nova ponte sobre o estreito que separa a Europa da Ásia

Bienal de Istambul mira a catástrofe climática e esquece da política
Notícias ao Minuto Brasil

19:00 - 15/09/19 por Folhapress

Mundo Crítica

ISTAMBUL, TURQUIA (FOLHAPRESS) - Um esqueleto de búfalo descansa como um estranho troféu sobre uma grande placa de concreto. Do lado de fora da janela, onde antes viviam os bichos que viraram carcaças dentro do museu, um rebanho de escavadeiras destroça as margens do Bósforo para dar lugar a novíssimos shoppings e hotéis de luxo.

O furor capitalista que vem transformando a metrópole turca num imenso canteiro de obras, entre elas uma nova ponte sobre o estreito que separa a Europa da Ásia e mais um aeroporto, é o pano de fundo dessa instalação montada na Bienal de Istambul. 

Ozan Atalan, jovem artista turco que criou o trabalho, não deixa muito à imaginação. Lá está a vítima –o búfalo– e seu algoz –uma chapa de concreto dessas empilhadas pelos operários em toda a cidade.

Quando imaginou a mostra, Nicolas Bourriaud, à frente desta 16ª Bienal, tinha outra imagem contundente na cabeça. O crítico francês pensou na enorme massa de plástico descartado que flutua como uma ilha no meio do Pacífico. 

Esse novo território indesejável, materialização dramática da catástrofe ambiental que sufoca o planeta, orientou sua busca por artistas e obras que dissecassem o surgimento de um "sétimo continente para onde ninguém quer ir, nosso inconsciente coletivo de partículas tóxicas".

Os deslocamentos forçados em tempos de montanhas de lixo à deriva no mar, Amazônia em chamas e geleiras derretendo vitimaram até mesmo a exposição, que teve de abandonar de última hora o estaleiro onde seria montada porque o terreno ao redor estava contaminado por amianto.

"Tivemos de repensar tudo, mas não nos arrependemos. Mudamos de lugar, afinal, por causa dessas questões ambientais", diz Bourriaud. "A exposição foi tragada para dentro dessa catástrofe climática."E não saiu da tempestade sem sofrer algumas graves sequelas. Bourriaud, famoso por dar nome à chamada estética relacional, ou obras que clamam pelo engajamento ativo do público, fez uma série de escolhas datadas e repisa conceitos já vistos à exaustão em grandes mostras como essa –debates sobre o pós-colonialismo, revisionismos históricos, arqueologias de mentira, fatos e passados alternativos.

Nesse sentido, seu continente para onde ninguém quer migrar muitas vezes se transforma em exposição que ninguém quer ver. Isso porque estamos no acidentado terreno do ativismo ambiental, uma estética ecochata de inclinações hippies que quase nunca se traduz em obras de arte dotadas de alguma força.

Há excessos literais, como o búfalo morto, os vídeos do coletivo Feral Atlas, que flagra desastres naturais ao redor do mundo, entre eles um vulcão de lama na Indonésia, ou os trabalhos do turco Deniz Aktas, que dá verniz romântico –ele fala em Caspar David Friedrich– a desenhos de montanhas de pneus no lixão.

Mas todo esse sentimentalismo marcado pelo amor às ruínas que tão bem casava com a melancolia do fin-de-siècle parece fora de lugar na atualidade cataclísmica que atravessamos. E a mostra, levada a um museu à beira do Bósforo onde cada trabalho fica isolado numa sala, se transforma em sucessão de obras estanques ancoradas no bom-mocismo de fachada –algumas são constrangedoras, como o tapete fofo com bordados sobre como cuidar da terra, da francesa Suzanne Husky.

Mas nem tudo está perdido.  Num dos melhores e mais delirantes trabalhos da mostra, o britânico Simon Fujiwara construiu maquetes arquitetônicas em torno dos restos de bonecos que encontrou num parque de diversões abandonado em Istambul. Nelas, bustos de Bart e Homer Simpson ou um Coringa boquiaberto presidem pequenas cidades infernais –o rosto do inimigo do Batman, por exemplo, vigia todas as celas de uma prisão.

Fujiwara documenta sem pudor o momento em que o espetáculo fake de metrópoles entregues à força do dinheiro se transforma em pesadelo.

Num forte contraponto, a brasileira Anna Bella Geiger mergulha tempos ancestrais na mesma lógica da espetacularização ao montar uma maquete do que parece ser um sítio arqueológico, uma pirâmide dominando a paisagem, sem nunca dizer que aquilo é total invenção. Sua obra, criada há mais de dez anos, ganha força num momento em que narrativas já aceitas do passado são revistas por quem está no poder.

O império da falsidade de Geiger encontra eco nas telas mutantes de Agnieszka Kurant. As pinturas de cristal líquido da artista polonesa, composições que reagem em tempo real a comentários de grupos de ativistas nas redes sociais, mudam de cor segundo o nível de raiva, desgosto ou medo manifestado nessas plataformas, fazendo com que seus quadros partam de um verde plácido a um vermelho intenso em questão de poucos segundos.

"Isso reflete nossa energia social, que vem sendo garimpada cada vez mais", diz Kurant. "Essa energia se tornou combustível, da mesma forma que o petróleo. São as pegadas do inconsciente coletivo."

Esse mesmo inconsciente, como Bourriaud define a ilha de dejetos a nos assombrar no meio do oceano, também orienta a obra da britânica Suzanne Treister, que inventa um alter ego, personagem do mercado financeiro, obcecado em desenhar no papel as relações tão escusas quanto coloridas entre a indústria farmacêutica e o chamado big tech. 

Seu executivo solitário constrói longas séries de retratos de personagens um tanto depressivos a comandar transações bilionárias entre grupos como Pfizer, Apple e Google.

Num mundo menos medicado, mas não menos selvagem, o brasileiro Jonathas de Andrade volta à Bienal de Istambul com um de seus melhores trabalhos recentes, o filme em que pescadores acariciam contra o peito os peixes sacados do rio até a morte espásmica, ofegante dos bichos.

Sua obra, possível exemplo daquilo que Bourriaud entende como elo dos artistas com um mundo pós-domínio humano, se equilibra entre a brutalidade e o desejo, escancarando uma ideia de amor que, levada às últimas consequências, pode ferir e matar.

Mas os peixes de Andrade e a montanha de lixo de Bourriaud, de fato, estão longe de Istambul, deixando evidente certa desconexão da mostra com o lugar onde ela acontece.

E também a sua turbulência política. Um único trabalho, do americano Glenn Ligon, por exemplo, alude à recente eleição que levou ao poder um prefeito de Istambul que faz oposição aberta ao presidente Recep Tayyip Erdogan, forte sinal de mudança no horizonte neste país entregue há anos ao autoritarismo.

Bem longe dos principais espaços da Bienal, numa ilha no meio do mar de Mármara, a uma hora de barco da cidade, Ligon montou dois letreiros em néon vermelho com a data da primeira eleição deste ano e o dia em que refizeram o pleito a pedido de Ancara, confirmando a vitória da oposição –a obra mais poderosa da mostra está escondida numa casa de veraneio invisível aos olhos da metrópole.*O jornalista viajou a convite da Contemporary Istanbul.

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