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Biden pressiona Riad, mas rejeita punir príncipe herdeiro

Na sexta-feira (26), a CIA divulgou um relatório que responsabiliza pessoalmente o príncipe Mohammed bin Salman, conhecido pela sigla MbS, por ter ordenado o assassinato de Khashoggi

Biden pressiona Riad, mas rejeita punir príncipe herdeiro
Notícias ao Minuto Brasil

13:42 - 02/03/21 por Folhapress

Mundo MOHAMMED-BIN SALMAN

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Durante a campanha eleitoral, o então candidato Joe Biden prometeu linha dura com o regime da Arábia Saudita, que era queridinho do presidente Donald Trump.

Em um governo Biden, disse o democrata, os sauditas envolvidos no assassinato e esquartejamento do jornalista Jamal Khashoggi dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018, iriam "pagar por isso", e os EUA fariam deles "os párias que realmente são".

Na sexta-feira (26), a CIA divulgou um relatório que responsabiliza pessoalmente o príncipe Mohammed bin Salman, conhecido pela sigla MbS, por ter ordenado o assassinato de Khashoggi.

E o que aconteceu? O Departamento do Tesouro impôs sanções contra o antigo vice-chefe da inteligência saudita, Ahmed al-Asiri, e contra a Força de Intervenção Rápida da monarquia saudita, que se reportava diretamente a MbS e "cuidava" de dissidentes.

Além disso, vetaram vistos para 76 pessoas que sequestravam jornalistas e dissidentes no exterior e os levavam para serem presos em solo saudita. Por sua vez, MbS saiu incólume e, se quiser, pode até passar as férias na Disney.

Frente à promessa de Biden de fazer uma reviravolta na política externa, tornando os direitos humanos uma prioridade, as imposições da realpolitik falaram mais alto.

"Achamos que existem maneiras mais eficientes de garantir que isso [assassinato de Khashoggi] não aconteça novamente, enquanto mantemos espaço para trabalhar em conjunto com os sauditas em áreas em que há entendimento mútuo, e há interesses nacionais para os EUA. Isso é diplomacia", disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, no domingo (28), após pressão de legisladores e ativistas para uma ação mais enérgica contra MbS.

O governo Biden criou expectativas ao dizer que haveria mais anúncios sobre o caso na segunda-feira (1º). No entanto, um porta-voz do Departamento de Estado limitou-se a afirmar que o governo americano está "focado no comportamento futuro" da Arábia Saudita e simplesmente instou Riad a melhorar sua atuação em direitos humanos e acabar com a "força de elite" que assassinou Khashoggi.

O presidente Joe Biden faz uma aposta arriscada: quer limpar sua barra com o público doméstico, que exige atitudes contra MbS, sem implodir o relacionamento com o príncipe saudita, que é quem manda na monarquia do Golfo.

Em diplomatiquês, a Casa Branca afirma que o objetivo seria recalibrar a relação com a Arábia Saudita, mas sem provocar uma ruptura.

Parte da recalibragem seria a decisão do governo Biden de vetar vendas de armas para ações de ataque dos sauditas na guerra do Iêmen. Biden também cancelou vendas autorizadas por Trump. Mas deixou claro que os EUA continuariam a vender armamentos para que a Arábia Saudita possa se defender do Irã e dos aliados do país xiita.

Em sua primeira ligação para o governo saudita, Biden falou com o rei Salman, e o governo afirmou que o monarca seria interlocutor do presidente americano, e não MbS. Trump oferecia a MbS uma linha direta com a Casa Branca, via seu genro, Jared Kushner.

Entidades de direitos humanos, jornalistas, legisladores democratas e até John Brennan, ex-diretor da CIA no governo Obama, criticaram duramente a decisão de não impor sanções contra MbS.

"Dizer que o príncipe regente MbS foi o responsável pelo horrendo assassinato de Jamal Khashoggi não é suficiente para responsabilizá-lo. O governo Biden precisa fazer muito mais. Para começar, vetar encontros com autoridades americanas e visitas aos EUA", escreveu Brennan em uma rede social.

Em artigo nesta segunda-feira, Fred Ryan, publisher do Washington Post, que era empregador de Khashoggi, disse que Biden havia dado um "passe livre para um assassinato".
Os EUA já sancionaram chefes de Estado ou governo antes: Nicolás Maduro, ditador da Venezuela; Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte, e Bashar al-Assad, da Síria. Mas nenhum desses países tem o poder de desestabilizar o mercado de petróleo mundial.

Por mais que o aumento de produção nos EUA tenha reduzido, e muito, a dependência do reino, a Arábia Saudita ainda tem o poder de reduzir significativamente sua produção, algo que a maioria dos outros produtores não tem.
Além disso, impor sanções contra MbS seria cortar relações com o reino saudita por um longo período. O rei Salman tem 85 anos e a saúde frágil. O príncipe de 35 anos é quem governa e deve se manter no poder por muitos anos.

O democrata quer preservar alguma boa vontade dos sauditas. Biden precisa do apoio da Arábia Saudita em operações antiterrorismo e para gerenciar o equilíbrio no Oriente Médio. E ele já vai gerar insatisfação no reino do Golfo ao tentar ressuscitar o acordo nuclear com o Irã, sabotado por Trump. O governo saudita é forte opositor do acordo, desde que foi instituído, no governo Obama. Além disso, o rei Salman vem intensificando os laços com a Rússia e a China, os inimigos dos EUA.

Trump justificava a insistência em vender armas para os sauditas, mesmo após oposição do Congresso, como uma questão econômica. De fato, o intercâmbio comercial entre os dois países é significativo -foi de US$ 38 bilhões em 2019 (R$ 214 bi, nesta segunda), e os sauditas são grandes compradores de armamentos.

Mas esse é apenas um pedaço da história. A aliança entre os EUA e a Arábia Saudita vem de longe, foi firmada 76 anos atrás, entre o presidente Franklin Delano Roosevelt e o avô de MbS, rei Abdulaziz. Os EUA garantiriam acesso ao petróleo saudita, e, em troca, protegeriam a Arábia Saudita de ameaças estrangeiras.

Desde sempre, eram países diferentes: uma democracia que, no papel, é comprometida com direitos humanos, e uma monarquia absolutista.

Ao longo da história, muitas vezes, os EUA tiveram de fechar os olhos para violações de direitos humanos, quando a geopolítica era mais importante. Aparentemente, é isso que vai acontecer, de novo.

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