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Saiba como Cacilda Becker, que faria cem anos, deu luz a um novo teatro no Brasil

Nesta terça, o site do Teatro Oficina deve transmitir uma live com passagens das peças e imagens históricas, inclusive um filme de pouco mais de um minuto, de 1937, em que ela dança na praia

Saiba como Cacilda Becker, que faria cem anos, deu luz a um novo teatro no Brasil
Notícias ao Minuto Brasil

08:09 - 06/04/21 por Folhapress

Cultura CACILDA-BECKER

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Miroel Silveira estava na plateia do teatro Coliseu, em Santos, no litoral paulista, quando a jovem de 16 anos surgiu no palco com uma coreografia que ela havia criado, "A Lenda de um Beijo", em janeiro de 1938.

Recém-formado na São Francisco, ele começava como crítico e correu para O Diário, do grupo de Assis Chateaubriand. Descreveu "a presença de uma criatura esbelta tão desafiadoramente altiva que a linha de seu corpo colocava a cabeça um pouco para trás, flexível, fantástica no captar as atmosferas" da "Valsa Triste", de Sibelius.

Prosseguiu. "Fiquei instantaneamente deslumbrado. Senti que a quase menina possuía uma irradiação particular, de rara transcendência, que a destinava aos mais altos níveis da realização artística. A adolescente faiscava."

Silveira, que mais tarde seria crítico do jornal Folha de S.Paulo e professor de teatro na Universidade de São Paulo, passou os dez anos seguintes fazendo cumprir sua profecia, levando a jovem para companhias históricas em que ele trabalhou, como Teatro do Estudante e Comediantes, até ela se tornar a primeira profissional do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, em 1948.A atriz, que morreu em 1969 depois de sofrer um aneurisma no intervalo de uma apresentação de "Esperando Godot", faria cem anos nesta terça-feira.

O crítico Décio de Almeida Prado, do jornal Estado de S. Paulo, que chegou a dirigir a atriz num grupo universitário e foi um dos responsáveis por sua contratação pelo TBC, escreveu em 1950, sobre "Pega-Fogo", em que ela fazia um menino.

"Não é sem emoção que São Paulo acompanha a carreira dessa mulher, na aparência tão frágil, que se vai consumindo pelo teatro diante dos nossos olhos, emagrecendo de papel a papel, à medida que mais se afina a sua arte", afirmava Almeida Prado.

Depois. "Cacilda vive do teatro e para o teatro, a ponto de se ter reduzido materialmente, pela exaustão física, a um vibrante feixe de nervos, como se a atriz dispensasse tudo que não constitua matéria para a sua arte, tudo que não seja sensibilidade e energia nervosa."

O diretor Zé Celso, de 84 anos, escreveu o ciclo de peças biográficas "Cacilda", em parte já encenado, começando pela montagem de 1998, com Bete Coelho. Nesta terça, o site do Teatro Oficina deve transmitir uma live com passagens das peças e imagens históricas, inclusive um filme de pouco mais de um minuto, de 1937, em que ela dança na praia.

Zé Celso descreve como a viu em "Gata em Teto de Zinco Quente", uma das últimas aparições da atriz no TBC, em 1956. "Ela flanava, com um penhoar, um decote. Encostava um copo de uísque nas costelas. Flutuava de tesão, porque queria o Walmor [Chagas, ator com quem foi casada], que na peça era o marido que não queria trepar com ela. Era uma coisa."

"Aquele corpo de dançarina foi para toda a carreira. Era de uma vitalidade e ao mesmo tempo de uma melancolia. Ela dançava o texto, lentamente. [O diretor italiano] Ruggero Jacobbi dizia que ela tinha uma interpretação fisiológica. E eu escrevi as peças porque queria descobrir esse mistério, da eletricidade dela", resume Zé Celso.

A singularidade de Cacilda foi reconhecida por aquela que a sucedeu como primeira atriz do país, Fernanda Montenegro, e também por rivais como Tônia Carrero. Esta causou escândalo nos anos 1950, ao tirar dela o amante e diretor Adolfo Celi, abrindo caminho para o fim do TBC.

Maria Thereza Vargas, de 91 anos, amiga de Cacilda por mais de duas décadas, autora de ensaios e livros sobre ela como "Uma Atriz: Cacilda Becker" -com Nanci Fernandes, da editora Perspectiva, em 1983-, enfatiza a sua liderança a partir do TBC, que assumiu aos 27 anos.

"Ela e o Celi puseram aquilo em movimento, tomaram muito a sério aquele teatro", diz, acrescentando que a atriz faria diferença hoje, em meio à pandemia, quando "está tudo tão parado, sem ânimo, e o teatro pouco significa". Lembra que "a vida dela foi toda dedicada ao teatro, não tinha vida própria, vivia em função do teatro".

O jornalista e historiador Luís André do Prado, autor da biografia "Cacilda Becker: Fúria Santa" -lançado em 2002 pela Geração Editorial-, cujos direitos chegaram a ser comprados pela Globo, a vê como "a primeira atriz moderna brasileira", abrindo uma nova fase para o teatro.

Lembra que sua liderança "foi estimulada desde cedo pela própria circunstância familiar, do pai que deixa a família quando ela tinha nove anos", ainda em Pirassununga, no interior paulista, onde ela nasceu. Cacilda "passou a ter essa característica, de uma personalidade forte, arrimo das irmãs, que ia para a rua e brigava por seus interesses e, mais tarde, por aquilo que fez profissionalmente".

Daí a sua "luta pela valorização do ator" e o engajamento na defesa do teatro, culminando em 1968 com a tomada da dianteira nas ações contra a censura e a própria ditadura, tirando colegas da cadeia. Foi então que proclamou que "todos os teatros são meus teatros".

Morreu pouco depois, aos 48 anos. O filho Cuca, Luiz Carlos Becker Fleury Martins, de 71 anos, estava com ela no intervalo de "Godot", em que ele fazia o Menino. "Ela foi se sentar no fundo do palco. 'Meu filho, estou uma dor de cabeça. Me dá uma Cafiaspirina?' Dei e ela repetiu 'que dor de cabeça' e começou a tombar."

A atriz Marília Pêra passava pela avenida Brigadeiro Luís Antônio, viu a ambulância na porta do Teatro Cacilda Becker e entrou. "Alguém veio ao palco com a Cacilda nos braços e a passou para alguém na plateia. Ela foi sendo levada, o braço caído. Os dedos dela iam esbarrando pelas cadeiras, era como se estivesse tentando se segurar. Aquilo me marcou muito."

Morreu 39 dias depois, quando Cuca autorizou os médicos a desligarem os aparelhos.

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