Meteorologia

  • 03 JUNHO 2020
Tempo
--º
MIN --º MÁX --º

Edição

Entenda a turbulenta relação dos EUA com o Irã

Entenda a turbulenta relação dos EUA com o Irã

Entenda a turbulenta relação dos EUA com o Irã
Notícias ao Minuto Brasil

07:50 - 09/01/20 por Folhapress

Mundo Tensão

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Antes da tensão atual entre Irã e EUA, os países eram aliados. Washington tinha fácil acesso ao petróleo iraniano e via sua influência no país como uma porta de entrada para o Golfo Pérsico, principal região petrolífera do mundo.

A situação mudaria radicalmente a partir do final dos anos 1970, quando os países romperam relações diplomáticas. Décadas mais tarde, com a assinatura do acordo nuclear em 2015, houve uma reaproximação, que seria minada gradativamente a partir da eleição de Donald Trump.

ENTENDA ESSA RELAÇÃO TURBULENTA

O COMEÇO DAS HOSTILIDADES

O Irã era um dos principais clientes da indústria de defesa dos EUA nos anos 1950. Foi o país americano, inclusive, que ajudou Teerã a desenhar seu programa nuclear, no final daquela década.

A boa relação se deu porque os EUA apoiaram o xá Reza Pahlevi a derrubar o premiê nacionalista iraniano Mohammad Mossadegh, em 1953. A volta da monarquia, comandada por Pahlevi, garantiu a Washington fácil acesso ao petróleo iraniano e era uma porta de entrada dos EUA no Golfo Pérsico, principal região petrolífera do mundo.

Os países permaneceram aliados até 1979, quando a Revolução Islâmica transformou o Irã em uma república teocrática. Naquele ano, a monarquia se dissolveu devido a protestos estimulados pelo opositor de Pahlevi, uma figura religiosa chamada Ruhollah Khomeini. 

Khomeini dizia que as reformas que os EUA pressionavam o xá a fazer no país, entre as quais o fortalecimento dos direitos das mulheres e uma redistribuição de terras, eram contrárias ao islã.

O poder do xá foi cedendo até ele deixar o país e se refugiar no Egito, em janeiro de 1979. O aiatolá (mais alto cargo entre os muçulmanos xiitas) Khomeini assumiu o poder, posto que ocupou até morrer, dez anos mais tarde.

O EPISÓDIO DA INVASÃO DA EMBAIXADA AMERICANA EM TEERÃ

As relações EUA e Irã se deterioraram ainda mais quando estudantes iranianos invadiram a Embaixada dos EUA em Teerã e fizeram 52 reféns, em novembro de 1979. Eles exigiam que o xá Reza Pahlevi, que estava nos EUA para tratamento médico, fosse extraditado.

A crise dos reféns dominou os 14 meses restantes do governo Jimmy Carter (1977-1981) e marcou o rompimento diplomático entre Teerã e Washington. Em 20 de janeiro de 1981, 20 minutos após o discurso de posse de Ronald Reagan, os reféns foram libertados. Haviam ficado 444 dias detidos.

A invasão da Embaixada foi o ápice da escalada de nacionalismo deflagrada pela revolução que colocou o aiatolá no poder. O fracasso de duas missões americanas de resgate dos reféns, em 1980, aumentou o ressentimento contra os EUA, que na retórica fundamentalista de Khomeini eram chamados de "grande satã".

O ATAQUE AMERICANO QUE DERRUBOU UM AVIÃO COMERCIAL IRANIANO

No dia 3 de julho de 1988, um avião de passageiros da companhia Iran Air voava de Teerã para Dubai quando, ao sobrevoar o estreito de Hormuz, foi derrubado por um míssil disparado de um navio da Marinha americana.

Segundo a versão dos EUA, o capitão da embarcação Vincennes teria confundido a aeronave, que estava em espaço aéreo iraniano, com um caça militar em procedimento de ataque. O engano matou as 290 pessoas a bordo -destas, 254 eram cidadãos iranianos.

Naquele período, o Golfo Pérsico passava pela "Guerra dos Navios-Tanque", em que navios americanos escoltavam petroleiros que circulavam pelo estreito de Hormuz após minas iranianas terem atingido embarcações na região. Os Estados Unidos estimam em 160 os navios atacados pelo regime. Pelo estreito de Hormuz passa cerca de 1/4 do petróleo do mundo. 

As tensões geraram um conflito naval que durou um dia entre Washington e Teerã -além da derrubada do avião de passageiros, que entrou para a lista das dez piores tragédias da história da aviação.EUA SE

RETIRAM DO ACORDO NUCLEAR E IMPÕEM SANÇÕES

Em 2018, depois de repetidas ameaças, o presidente Donald Trump retirou os EUA acordo nuclear com o Irã. O pacto havia sido firmado três anos antes, quando o presidente iraniano Hasan Rowhani e Barack Obama se sentaram à mesa de negociações junto aos outros membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU -Reino Unido, França, China e Rússia-, além da Alemanha.

O tratado dificultou o acesso de Teerã a combustíveis usados em armas nucleares (plutônio e urânio), reduziu em 2/3 seu número de centrífugas e obrigou o país a baixar o estoque de urânio enriquecido em 98%. O Irã também concordou, com ressalvas, com inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.

Como contrapartida, sanções econômicas impostas ao país foram aliviadas, rompendo um isolamento longevo, e US$ 100 bilhões em ajuda ao Irã foram liberados.

Poucos meses depois de abandonar o acordo, os EUA impuseram novas punições contra o país. O objetivo era estrangular a economia local. As restrições impedem que outros países comprem petróleo iraniano –cerca de 80% da economia depende do setor de óleo e gás. A venda do Irã para o exterior caiu de 2,5 milhões de barris/dia em 2018 para 400 mil em maio de 2019.

COMO RESPOSTA, IRÃ VOLTA A ENRIQUECER URÂNIO

O Irã, primeiro, resolveu continuar cumprindo o acordo, esperando que os europeus convencessem Trump a voltar atrás. Depois, vendo que tudo tinha ficado por isso mesmo, Teerã anunciou que quadruplicou a taxa de enriquecimento de urânio e que ultrapassou o limite de 300 kg estabelecido pelo tratado.

O urânio enriquecido pode ser usado para a construção de bombas nucleares. Em novembro de 2019, a taxa de enriquecimento chegou a 5% -inferior à de 20% que o país chegou a produzir e ainda longe da de 90% necessária para a fabricação de uma bomba atômica. De todo modo, o enriquecimento de urânio funciona como uma ameaça. 

Também no ano passado, houve uma série de explosões em petroleiros no Golfo de Omã –os EUA acusaram o Irã, que negou e ameaçou interromper o tráfego marítimo no estreito de Hormuz, por onde passam quase 20% do petróleo consumido no mundo.

EUA MATAM GENERAL IRANIANO E TEERÃ REVIDA

O ataque de um drone americano que matou o general iraniano Qassim Suleimani na semana passada levou a relação ao limite. Suleimani era chefe da força de elite Quds, da Guarda Revolucionária do Irã, considerado a segunda pessoa mais poderosa do país, atrás apenas do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Dias mais tarde, o Irã revidou, avisando que não limitaria mais o enriquecimento de urânio –o que efetivamente significa o fim do acordo nuclear. Mas o pior ainda estava por vir: na terã (7), a Guarda Revolucionária lançou ao menos 12 míssies contra duas bases americanas no Iraque.

Os alvos foram a base aérea de Ain al Assad, no oeste do país, e uma base próxima ao aeroporto de Erbil, capital da região autônoma do Curdistão, no norte. Não houve vítimas, segundo os EUA, mas a mídia iraniana disse que 80 soldados americanos morreram.

No dia seguinte, Trump fez discurso no qual disse que o Irã está "se acalmando", em um sinal de diminuição nas tensões entre Washington e Teerã. O republicano afirmou ainda que Washington vai impor novas sanções contra o país persa em breve e que a pressão econômica é a melhor arma dos EUA. 

Campo obrigatório