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Prêmio a Chico Buarque deixou ministro furioso

Declaração foi dada pelo ex-secretário especial de Cultura, Henrique Pires, que deixou o cargo essa semana

Prêmio a Chico Buarque deixou ministro furioso
Notícias ao Minuto Brasil

16:00 - 23/08/19 por Folhapress

Cultura GOVERNO-CULTURA

BRASÍLIA, DF E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Além do cancelamento de um edital de projetos para a TV, o ex-secretário especial de Cultura diz que enfrentou outros conflitos com Osmar Terra, ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro, por motivos políticos e ideológicos. Os casos incluem uma premiação a Chico Buarque e uma obra com personagens transexuais na Bienal de Veneza.

Henrique Pires, que deixou o cargo na última quarta-feira (21), afirma à Folha que correu o risco de ser demitido em maio, quando Chico Buarque foi anunciado como vencedor do Prêmio Camões, o principal da língua portuguesa.

"Ele [Terra] ficou furioso, porque eu tinha escolhido os representantes brasileiros do júri", diz, em referência aos escritores Antonio Cícero e Antônio Hohlfeldt. "O candidato deles não era o Chico, mas os outros quatro jurados chegaram com o nome dele, e eles seriam derrotados."

O músico é crítico de Bolsonaro e apoiou a campanha do petista Fernando Haddad na eleição de 2018. Segundo Pires, o ministro só se convenceu de que não havia motivação política na escolha depois de conversar diretamente com Hohlfeldt, seu amigo.

Terra, de acordo com o ex-secretário, também cancelou uma visita ao pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza. O país é representado pela obra "Swinguerra", dos artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, que inclui um curta-metragem e fotografias de dançarinos da cena brega e funk do Recife.

Pires afirma que o ministro não quis participar do evento porque o vídeo é protagonizado por uma dançarina transexual. O então secretário esteve no local, em maio.

A saída de Pires do cargo ocorreu após a suspensão de um edital de projetos para a TV que incluía uma categoria para séries com temática LGBT. Ele anunciou que deixaria o governo por não admitir a imposição de filtros.

No último dia 15, Bolsonaro criticou quatro projetos aprovados para a última fase do edital e anunciou o cancelamento da proposta. "Aquela lista que o presidente divulgou foi o Osmar que foi lá levar. Eu disse que ele não precisava botar gasolina no fogo", diz Pires.

O ex-secretário também critica o comportamento do governo em relação ao filme "Bruna Surfistinha". Ele afirma ser um erro o ataque ao financiamento de uma série baseada no filme de 2011. "Estamos falando de uma série que está chegando à quarta temporada e que é um sucesso. Mas o presidente fala do filme e ele [Terra] concorda. Ele concorda sempre", diz. "Falta conversar e explicar, sem ter medo do presidente."

Pires afirma que entende o estilo de Bolsonaro. "É o jeito dele. Não estou fazendo crítica a ele", diz. Mas afirma estar surpreso com o comportamento de seu antigo chefe. "O Osmar [Terra] sempre teve uma postura de esquerda. Ele foi militante no PC do B."

A reportagem enviou perguntas ao Ministério da Cidadania sobre as declarações dadas pelo ex-secretário. Não houve resposta até a conclusão desta edição.

Mais cedo, na manhã desta quinta-feira (22), o ministro Osmar Terra falou com jornalistas depois de uma palestra para empresários em evento em São Paulo. O chefe da pasta da Cidadania disse que o ex-secretário especial da Cultura "criou um enredo para justificar uma saída que era inevitável" e que "não há censura" no país.

"Ninguém é proibido de fazer nada no Brasil. Pode fazer qualquer filme em qualquer lugar. Agora, se vai envolver recurso público, nós [governo federal] temos o direito de opinar sobre os temas que são importantes", disse Terra.

"Se tem um filme que trata da história do Brasil e outro que trata de outro tema, o governo tem que decidir", disse o ministro. "O governo pode propor os temas. Por que eles têm que ser propostos por um funcionário do governo passado e nós temos que aceitar tudo? Não podemos ser obrigados a comer num prato feito no governo passado."

Terra diz avaliar que não houve censura na ação de suspender um edital com séries de temática LGBT. "O edital será relançado. Nós vamos rediscutir que temas vão ter nele", contou Terra, sem confirmar se o novo texto contemplará produções com temas LGBT.

"[A saída de Pires] Não teve nada a ver com o episódio do edital. O secretário não estava desempenhando. Não estavam andando os programas de municipalização, e eu estava cobrando isso há tempos. Estava tudo muito lento ali na secretaria, e nós estamos correndo contra o relógio."

"Eu fiquei surpreso [com a atitude de Pires]. Fui surpreendido pela notícia na imprensa. Ele nunca falou nada sobre isso [censura]. Pelo contrário, apoiou todas as medidas que estavam tomando", disse Terra. "Todas as discussões que nós tivemos sobre cinema, teatro e tal ele participou e apoiou."

OBRA QUE TERIA SIDO ATACADA POR OSMAR TERRA VEM A SP

A Fundação Bienal de São Paulo promove, no sábado (24), a partir das 9h, a exibição gratuita, e em looping até às 19h, de "Swinguerra", de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, no parque Ibirapuera.

A obra, comissionada pela fundação para a 58ª Bienal de Veneza, que acontece até novembro deste ano, também terá exibições na mostra competitiva do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

No sábado, haverá sessão no Cinesesc, às 17h. No domingo (25), no Cine Olido, às 17h. No Centro Cultural São Paulo, há exibição na sexta (30), às 15h.

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